O blog Purpendicular não está de volta, mas escrevi o texto abaixo e este é o melhor lugar para publicá-lo. Quero agradecer aqui ao Lucas Castanheira e ao Bruno Almeida, antigos leitores deste blog, que vieram comentar comigo sobre a falta que o Purpendicular lhe faz numa hora destas, e aos queridos amigos da família Possetti, especialmente ao Léo, primeiro a me avisar, logo que acordei, do que aconteceria na noite de quarta-feira.
“Como é que você ficou tão mais alto?”, perguntou o lendário guitarrista Ritchie Blackmore, 81, fundador do Deep Purple e do Rainbow e inspiração de três gerações de guitarristas.
“É o contrário, meu caro: eu encolhi”, respondeu o vocalista Ian Gillan, 80 anos e uma cabeça mais alto do que seu ex-colega, antigo amigo e tradicional rival.
Havia 33 anos que não se apresentavam juntos, e o último registro conhecido de um abraço deles no palco é de 1985, em Malmö, na Suécia. Agora estava pequenininho, esse guitarrista que sempre pareceu maior do que sua estatura, autor de alguns dos riffs mais conhecidos do rock e alguns dos solos mais copiados pelas gerações seguintes. E afável, ao contrário de sua fama de estar sempre de cara amarrada.
Por seis minutos, Blackmore, Gillan, o baixista Roger Glover e o baterista Ian Paice realizaram o sonho de fãs ao redor do mundo de rever ao menos 80% da formação clássica do Deep Purple tocando “Smoke on the Water”, ainda que numa versão mais lenta do que o usual. Mesmo tendo seus nomes impressos juntos em capas de disco desde 1969, nas últimas três décadas o guitarrista só falava com os outros sobre gestão de direitos autorais, por meio de empresários e advogados. Jon Lord, o tecladista fundador da banda, morreu em 2012. Um reencontro a essa altura da vida sempre é urgente: sabe-se lá quantos ainda estariam no palco caso essa canja fosse também adiada.
Richard Hugh Blackmore começou sua carreira na música aos 18 anos. Fez uma turnê ao lado de Jerry Lee Lewis e passou as obrigatórias temporadas na zona portuária de Hamburgo, tocando em cabarés como os Beatles. Tocava o que houvesse de mais rápido, até o Tico-Tico no Fubá. Aos 20 anos, já era demandado para frilas de estúdio tocando nos discos alheios, às vezes sem receber crédito. Aos 22, estava em Hamburgo novamente quando foi convidado para criar uma banda inovadora com o imponente tecladista Jon Lord e o encapetado baterista Ian Paice – era a primeira formação do Deep Purple, que incluía longos intervalos instrumentais e citações a trechos de música clássica.
Em 1969, o sucesso ainda não tinha chegado. Quando Blackmore ouviu a estreia do Led Zeppelin, resolveu trocar o crooner Rod Evans por alguém de voz mais potente. O amigo baterista Mick Underwood, morto em 2024, lhe indicou Ian Gillan, que trouxe o baixista e compositor Roger Glover. Foi então que a banda começou a estourar. Tendo sido discípulo do performático Screaming Lord Sutch, Blackmore tocava de maneira teatral. Jogava a guitarra no ar, tocava com a sola do sapato, arranhava as cordas como se tivesse garras, alternava momentos calmos com a fúria das notas. No auge do sucesso, chegou a botar fogo em amplificadores e destruir uma câmera a golpes de guitarra. Seu ímpeto e suas sacadas musicais foram a inspiração para o heavy metal que viria depois: Van Halen, Iron Maiden, Metallica e outros beberam da fonte que Blackmore ajudou a abrir.
Ele era um espetáculo tão imperdível que começou a decidir a demissão de colegas, com o apoio tácito dos outros, e resolveu cair fora quando a banda não aceitou gravar uma música que ele queria muito. Então formou a banda Rainbow, onde ele mandava e desmandava. Fez grande sucesso no rádio no começo da década de 1980, mas não era o Deep Purple. Em 1984, o Deep Purple voltou, e o empresário deles era o mesmo do Rainbow. Isso facilitou que Blackmore impusesse sua vontade. Era implacável, e na prática a banda era dele. Em 1989, demitiu Gillan.
Os membros da formação mais conhecida do Deep Purple dividiram um palco pela última vez em 17 de novembro de 1993, em Helsinque, quando Blackmore e Gillan tinham 48 anos e Glover estava quase lá. A imprensa só soube que era a última apresentação depois do fato. O genial e genioso guitarrista, fundador e até então líder incontestável do grupo, tanto fez para sabotar a volta de Gillan ao Deep Purple, imposta pela gravadora BMG, que acabou sabotando a si próprio.
A ideia de uma queda de braço entre Blackmore e Gillan estava expressa desde o título do último disco que gravaram juntos, “The Battle Rages On”, cuja capa mostrava um dragão com um só corpo e duas cabeças engalfinhadas passando pela logomarca do grupo. Dias antes do derradeiro show, Blackmore estava com a pá virada. Entrou no meio da primeira música, pegou um copo d’água e disparou contra um cameraman, encharcando no processo as mulheres de Gillan e Glover.
Naquele momento, Blackmore perdeu o apoio de toda a banda, que fez questão de lançar esse show em vídeo com depoimentos de todos os remanescentes entre uma faixa e outra.
(Anos mais tarde, quando a gravadora lançou a íntegra daquela apresentação em CD, Gillan deu uma entrevista ao “The Guardian” pedindo que os fãs não comprassem o disco por ser o pior momento deles. O título da entrevista, em vários sites, foi “Não comprem nosso disco, diz Deep Purple.”)
Numa derradeira tentativa de sabotar os colegas, o guitarrista rasgou seu passaporte para desistir definitivamente das datas marcadas no Japão no mês seguinte. Rapidamente, os outros decidiram seguir em frente com outro guitarrista aclamado, mas sorridente – Joe Satriani – para concluir a turnê. Depois, recrutaram o solar Steve Morse pelos 28 anos seguintes. Até 2014, foram a banda internacional que tocou mais vezes no Brasil, em longas turnês que chegaram a Santo André, Santa Bárbara D’Oeste e até Goiânia. Um site humorístico chegou a brincar que a banda pediria cidadania brasileira para não precisar mais pedir visto.
Depois de perder o Deep Purple, Blackmore praticamente se aposentou do rock, tocando craviola em discos de pop de inspiração renascentista com sua mulher, atraindo um público de nicho. Se alguém aparecesse a algum show seu com uma camiseta do Deep Purple, os assistentes lhe davam de presente uma de Blackmore’s Night e pediam que por favor o fã a vestisse imediatamente. Blackmore e Gillan passaram duas décadas trocando farpas em entrevistas, não raro resvalando na baixaria e ameaças de agressão.
Quando alguém perguntava aos membros do Deep Purple sobre um reencontro com Blackmore, a resposta era sempre de que seria impossível, primeiro porque o guitarrista não fala com ninguém e segundo porque a vida estava boa. Os ex-colegas lembravam os trotes pesados que Ritchie gostava de aplicar, bem como de exigências como as de sempre ter o maior cachê e o melhor camarim. Em 2016, quando a banda foi homenageada pelo Rock’n’Roll Hall of Fame, ele se recusou a ir dizendo que foi excluído. Todos da banda disseram que ele seria muito bem-vindo para uma canja caso aparecesse lá. Como ele não foi, David Coverdale e Glenn Hughes, ex-membros da terceira formação, também não foram convidados a dar uma canja, levando a uma década de dissabores da parte dos preteridos.
Tudo indicava que Blackmore e seus colegas só voltariam a se encontrar se o inferno congelasse, mas pelo jeito só foi necessário um eclipse solar seguido de chuva de meteoros no mesmo dia, como ocorreu no hemisfério norte em 12 de agosto de 2026.
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O Jones Beach Amphitheater é um tradicional local de espetáculos para 15 mil pessoas em Long Island, no Estado de Nova York. Na noite de 11 de agosto, ainda havia muitos ingressos disponíveis para o show da noite, que antes do Deep Purple ainda teria o Kansas (de “Carry On My Wayward Son”) e Vanilla Fudge, uma inspiração da primeira formação do Deep Purple, em 1968.
Sofrendo de complicações da gota, Blackmore decidiu neste ano que só se apresentaria nas imediações de Long Island, onde vive com a mulher, a cantora Candice Night, e os dois filhos adolescentes do casal. Mesmo assim, cancelou as últimas datas que marcou devido a uma emergência cardíaca.
Na noite de terça, Candice postou em suas redes sociais que ela e Ritchie fariam um anúncio importante. Abriram uma live esquisitíssima no Instagram, com a câmera bloqueada. A tela estava toda preta e só se ouvia as vozes do casal – “não estamos vestidos pra isso”, disse Candice. “Estou até de meias furadas”, disse Ritchie, famoso pela cara amarrada no palco mas dado a fazer troça nas lives que sua mulher o convence a fazer. Por alguns minutos, Candice saudou fãs da Colômbia, Argentina e México. Blackmore respondeu minúcias sobre seu equipamento e disse que não usava mais suas botas de couro de cobra porque, devido à gota, seus pés não cabem mais nelas. A cantora então disse que precisavam falar de algo muito importante: Blackmore se apresentaria ao lado do Deep Purple na noite seguinte. Até havia ido a um médico para tomar uma injeção de esteroides e assim poder ficar em pé no palco. “Mandei um recado por pombo-correio de IA ao Ian Gillan perguntando se eu poderia ir e ele topou”, disse.
Durante a madrugada, os grupos de fãs do Deep Purple e de Blackmore (muitos dos quais dizem que não existe Deep Purple sem Blackmore) entraram em polvorosa. Será que ele iria mesmo? Será que tocaria só Smoke on the Water ou arriscaria alguma outra coisa? Tentaria Child in Time para provocar Ian Gillan, que foi parar no hospital depois de cantar a música pela última vez em 2002? Será que haveria tensão? Ele daria conta do recado?
Rich Shailor, um velho policial, fã e amigo da banda, conseguiu comprar um ingresso e se preparou para dirigir quatro horas para ir e outras quatro para voltar. Cliff “Cooky” Crawford, hoje bombeiro, foi especialmente convidado por ter sido assistente de Blackmore na época da reunião do Deep Purple em 1984.
Apenas quando Candice publicou uma foto do Deep Purple em círculo, com Blackmore de costas e Gillan ao seu lado, tocando em seu ombro, é que muitos acreditaram: era verdade.
Na coxia, logo atrás de Candice, estava Sally Day, atriz e assistente de Ian Gillan. O vídeo que publicou no Facebook capta o momento em que o roadie de Blackmore o empurra para o palco com firmeza gentil. Por muito pouco, pelo jeito, o lendário patriarca do metal não amarelou. O tecladista Don Airey, que tocou com Blackmore no Rainbow no começo dos anos 1980, faz uma reverência que não aparece em nenhum outro vídeo pego de frente.
Blackmore entra no palco meio sem jeito, de chapéu na mão, sem nada da altivez do passado. Procurou um amplificador onde deixar seu chapéu e foi checar o equipamento de McBride, que tem hoje a idade que ele próprio tinha ao perder a banda que batizou com o título da música favorita de sua avó. Cumprimentou-o, comentou algo sobre sua pedaleira e ambos deram risada.
Devagar, deixou o canto direito do palco, onde reinou durante suas passagens pelo Deep Purple e pelo Rainbow. No centro do palco, encontrou Ian Gillan, Roger Glover, o tecladista Don Airey (Blackmore já teve a ocasião de demitir uma vez cada um), e o baterista Ian Paice, única pessoa a ter estado em todos os shows que o Deep Purple fez desde 1968. Blackmore e Gillan apontaram um para o outro, sorrindo.
Antes de alguém tentar qualquer abraço, Blackmore baixou a cabeça e começou a tocar o riff que até hoje paga parte das suas contas: tã, tã, tã; tã tã tarã…
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Quando o Deep Purple e o rock britânico estavam em seu auge, no final dos anos 1960 e começo dos 1970, o imposto de renda britânico era particularmente severo com quem ganhasse muito bem, e ninguém tinha renda tão alta quanto as estrelas do rock. A faixa mais alta chegava a arrecadar 95% dos rendimentos excepcionalmente altos, como escreveu George Harrison na letra da canção “Taxman”.
Por essa época, um empresário dos Rolling Stones descobriu que, se um disco fosse gravado fora do país, o Fisco teria menos a cobrar. Então, mandou construir um estúdio móvel dentro de um caminhão que se deslocaria para onde fosse necessário para pagar o mínimo que pudessem. Foi a época em que os Stones foram se exilar no litoral francês. Além de reduzir a parte do Leão, também foi uma nova fonte de renda para a banda. Em dezembro de 1970, o Led Zeppelin alugou o caminhão para gravar numa granja do interior da Inglaterra o que seria seu quarto disco, o de “Stairway to Heaven”. Um ano depois, o Deep Purple levou o caminhão para Montreux, na Suíça, à margem do lago Genebra.
A ideia era singela: gravar um disco de estúdio sem a pressão de um estúdio. Usariam para isso o belo cassino de Montreux, onde desde 1967 o promotor Claude Nobs fazia um festival de jazz que existe até hoje. O Deep Purple já havia inclusive tocado nesse festival em 1969, logo na chegada de Gillan e Glover, e poucos meses antes, em 1971 mesmo. O som do local era incrível. Antes de liberar o local para que a banda gravasse, haveria um último show, de Frank Zappa, ao qual o Deep Purple foi convidado a assistir. Em um dado momento, alguém na plateia disparou um sinalizador dentro do prédio, incendiando o teto de palha. Só não aconteceu uma tragédia como a da boate Kiss porque a banda interrompeu a música e Frank Zappa pegou o microfone para avisar:
– FOGO! Arthur Brown, em pessoa! Senhoras e senhores, dirijam-se com calma até as saídas.
Ninguém se feriu, mas o prédio veio abaixo e a coluna de fumaça se estendeu por sobre o lago. O Deep Purple então precisou arrumar outro lugar para gravar. No primeiro, conseguiram gravar uma base com um riff simples enquanto a polícia batia desesperadamente na porta porque muitos moradores da pacata cidade reclamaram do barulho de madrugada. Acabaram se instalando no Grand Hotel, um pouco afastado da cidade e fechado para reformas. O caminhão não passava pela porteira, então foi preciso fazer uma série de gambiarras para gravar o disco. Certa noite, Roger Glover sonhou com o título “Smoke on the Water” (fumaça sobre a água). Gillan escreveu uma letra contando as peripécias daquela semana desde o incêndio e eles gravaram a voz sobre a base registrada quando a polícia estava à porta.
Para todos os membros da banda, a “música do dan-dan”, título provisório da base instrumental, não era o melhor que tinham a apresentar no disco “Machine Head”, lançado em março de 1972. Quando tocaram no Japão, em agosto, perceberam o sucesso. A gravadora lançou um compacto tendo de um lado a versão de estúdio e do outro a versão ao vivo no Japão. E foi assim que o riff se tornou um dos mais reconhecidos do mundo.
Com quatro acordes simplificados, o riff lembra bastante a introdução escrita por Tom Jobim para “Maria Moita”, composta por Carlos Lyra para o musical “Pobre Menina Rica”, de 1964. Não existe qualquer indicação de que Blackmore conheça conscientemente a música brasileira. Ele mesmo diz que criou o riff a partir da abertura da Quinta Sinfonia de Beethoven.
Smoke on the Water virou um hino extraoficial de Montreux a tal ponto que a banda sempre toca por lá em datas redondas. Em 1996, nos 25 anos do incêndio, apresentou o guitarrista Steve Morse, que cuidaria das cordas finas da banda até 2022. Em 2006, nos 35 anos, as imagens estilizadas de Glover, Gillan e Paice foram parar nos cartazes do evento. Em 2011, eles levaram uma orquestra. Em 2016, recriaram o incêndio com fogos de artifício. Em julho último, nos 55 anos do incêndio. Blackmore por várias vezes foi convidado pelo evento a participar, mas nunca topou.
No palco, ao dar sua última canja com os velhos colegas, Blackmore aproveita que McBride também está tocando o riff para fazer floreios que nunca antes fez. E deixa de tocar a introdução em certo momento para verificar, com pose de bedel, se o jovem sucessor está tocando direitinho. Faz sinal de aprovação e volta a tocar.
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A música dança com a noção de tempo na mente de quem ouve. Ouvir música faz o tempo voar, faz o tempo parar e também faz o ouvinte voltar no tempo. É por isso que ela faz tanta parte da nossa vida.
O solo de "Lady Double Dealer" me leva de volta aos 13 anos, tocando guitarra no ar ao voltar da escola. Ver o clipe de "King of Dreams" no Tele-Ritmo em 1991 foi um grande momento da vida. A fita com a gravação de "In Concert 1970-1972" era o que eu ouvia indo para a faculdade. Quando vim morar em São Paulo e passei sozinho o primeiro réveillon da minha vida, na virada de 2000 para 2001, ouvi o segundo Concerto for Group and Orchestra a todo volume, sozinho no apartamento escuro. "Above and Beyond" estava comigo quando minha mãe morreu. "Throw My Bones" foi a trilha sonora da primeira vez em que saí de casa no meio da pandemia. Na Alemanha, minha mulher foi comigo a um show deles pela primeira vez e se emocionou quando viu entrarem no palco os velhinhos de quem falo mais do que do meu pai.
Todos os fãs de rock de uma certa idade viram seus pais e tios envelhecerem ou morrerem. Olham-se no espelho e veem com naturalidade os sinais da própria idade. Mas nossos músicos favoritos terão eternamente 25 anos nas suas gravações consagradas, e não raro vem daí alguma dissonância. Fotos esmaecem, gravações em alta definição não.
Quando Ian Gillan anunciou que tinha perdido a maior parte da visão devido a uma retinopatia, muitos na internet debateram como ele tinha coragem de continuar se apresentando, especialmente porque há anos ele não dá mais os gritos atléticos da juventude. “Não canto com os olhos”, disse ele em entrevista ao The Telegraph em Montreux. Ele faz mais pausas durante os solos, mas não deixa de cantar – descobriu outras áreas de sua voz, saboreia mais as palavras. O anúncio de sua cegueira parcial explicou por quê, na turnê de 2024 pela Alemanha, ele caminhava até o lado de seu mais antigo amigo, Roger Glover, e ficava apenas parado olhando o público. Estava absorvendo o que pudesse da sua paixão enquanto ainda tinha metade da visão.
Na última vez em que a banda esteve no Brasil, no ano passado, perguntei a Roger Glover como mantinha seus joelhos tão saudáveis. À beira dos 80, ele tinha passado duas horas pulando com quatro quilos de madeira e arame pendurados no pescoço, enquanto meus pés estavam escangalhados por ter ficado duas horas em pé assistindo ao show. “Eu não sei como consigo, só pode ser por causa da energia que vem do público”, respondeu.
Em 2026, roqueiros octogenários lançaram excelentes discos novos, criativos e empolgantes. Paul McCartney lançou em março “The Boys of Dungeon Lane”, cujas letras refletem sobre a passagem do tempo desde que ele, John Lennon e George Harrison eram adolescentes e pegavam a balsa para aprontar em outra cidade. O próprio Deep Purple lançou “Splat”, no começo de julho, com letras em que Ian Gillan expõe sua bronca com a necessidade de ficar provando a robôs que é humano, filosofa sobre a reinvenção da humanidade após o fim – e volta a arriscar seus gritos como os de antigamente, ao menos no estúdio. Logo depois, os Rolling Stones lançaram o disco “Foreign Tongues”, em que Paul McCartney toca baixo em uma das faixas. Enquanto a saúde permitir, os rocktogenários não vão deixar o palco. Ninguém faz tão bem quanto eles.
Às vezes, a saúde não permite. David Coverdale, que ganhou projeção no Deep Purple entre 1973 e 1976 antes de criar o Whitesnake, parou de se apresentar na pandemia, quando teve complicações pulmonares, e virou um tiozão do pavê no Twitter, postando pegadinhas do Ivo Holanda e conversando com fãs. Já deu cinco estrelas a uma apresentação minha no karaokê cantando “Here I Go Again”. No ano passado, jogou a toalha e anunciou que estava, sim, aposentado. Pouco depois, fez um vídeo triste, anunciando que também deixaria de lado as redes sociais. Glenn Hughes, que fazia duetos com ele no Deep Purple e manteve a voz quase intacta até os 70 anos, também antecipou seus planos de aposentadoria devido a um procedimento cardíaco de emergência.
Envelhecer tem seus percalços, mas ainda é muito melhor do que a alternativa. Tommy Bolin, o segundo guitarrista do Deep Purple, perdeu a chance de ser um rocktogenário porque morreu aos 25 anos, em dezembro de 1976. Nunca saberemos o que ele, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison teriam gravado caso tivessem vivido mais. Quem não entrou para o “Clube dos 27 Anos” escala a pirâmide etária até a idade em que os maiores riscos são doenças cardíacas e cânceres, como o de pâncreas que levou o fundador do Deep Purple Jon Lord em 2012.
O Deep Purple, assim como Paul McCartney e os Rolling Stones, escolheu envelhecer à vista do público, mostrando cada nova ruga e fio de cabelo branco. Eles envelhecem assim como nossos parentes mais velhos. Nem nossos parentes, nem nossos ídolos, são invencíveis como pareciam em nossa juventude. Mas fazem o que podem.
Roger Glover diz que o Deep Purple nunca vai marcar um “último show” como tantas vezes já fez o Black Sabbath. Vão parar quando algum dos três mais antigos membros – ele, Gillan ou Paice – não puder mais tocar. Só saberemos qual foi o último show do Deep Purple depois que já tiver sido. Será menos anunciado do que o reencontro com Blackmore. E assim é a vida, frágil e imprevisível.
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Ritchie Blackmore não é um homem alto, mas sua postura e a distância que impunha aos colegas o faziam parecer muito maior do que sua estatura. Ao reencontrar no palco os velhos colegas, ele era o único que ainda ostentava a cabeleira artificialmente escura de há 30 anos e ainda assim era quem parecia mais envelhecido dentre todos. (Talvez eles apenas enganem melhor do que Blackmore.)
Essa fragilidade afável que demonstrou não impediu Blackmore de sugerir que ele ainda era o mesmo. Na hora em que deveria entrar o baixo ou a bateria, ele erguia a mão como nos velhos tempos, quando parecia que era ele quem mandava os colegas entrarem. Mesmo em missão de paz, deu pequenas alfinetadas. Num dos versos, Ian Gillan veio cantar ao seu lado, com a mão em seu ombro. Blackmore olhou para ele e apontou o dedo para a própria boca, como quem diz “você não canta mais do mesmo jeito”. Gillan apontou para a cabeça do antigo rival, como quem diz “não, você é que tá maluco”. Depois, Ritchie pegou a mão de Gillan e a usou como palheta, batendo ritmicamente nas cordas.
Ao tocar pela última vez o solo de Smoke on the Water, Blackmore desviou da linha melódica que escreveu em 1972 e que seus sucessores desde Satriani procuraram repetir quase nota por nota. Seus solos sempre foram do tipo que podia ser cantado, e ele os toca como quem conta uma história. Certa vez, numa entrevista, perguntaram a Blackmore o que ele achava dos guitarristas que tocavam dezenas de notas por segundo nos anos 80 e 90 – o mais exagerado de todos, Yingwie Malmsteen, copiava até sua vestimenta. “Eles não procuram a nota”, observou. Com os dedos menos firmes devido a uma artrite, ele não procurou a rapidez, e sim uma nova melodia. Nota por nota, como quem pensa cada palavra do que quer dizer, Blackmore contou outra história no meio de Smoke on the Water.
Ao final da canção, abraçado ao velho amigo, Gillan pediu que o público saudasse “a grande lenda, o imortal Ritchie Blackmore”. Enquanto o cantor dizia que logo eles se encontrariam no bar, Ritchie lhe entregou a pesada Fender Stratocaster 1989 para segurar enquanto ia cumprimentar o público. Deu um abraço em Roger Glover, alvo de seus piores trotes da juventude, deu as costas e foi para os bastidores.
Talvez, apenas talvez, essa tenha sido a última apresentação do patriarca do heavy metal. Mas, como sabe cada fã, os rocktogenários são muito teimosos.




