sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O outono do patriarca do heavy metal

O blog Purpendicular não está de volta, mas escrevi o texto abaixo e este é o melhor lugar para publicá-lo. Quero agradecer aqui ao Lucas Castanheira e ao Bruno Almeida, antigos leitores deste blog, que vieram comentar comigo sobre a falta que o Purpendicular lhe faz numa hora destas, e aos queridos amigos da família Possetti, especialmente ao Léo, primeiro a me avisar, logo que acordei, do que aconteceria na noite de quarta-feira.



“Como é que você ficou tão mais alto?”, perguntou o lendário guitarrista Ritchie Blackmore, 81, fundador do Deep Purple e do Rainbow e inspiração de três gerações de guitarristas.

“É o contrário, meu caro: eu encolhi”, respondeu o vocalista Ian Gillan, 80 anos e uma cabeça mais alto do que seu ex-colega, antigo amigo e tradicional rival. 

Havia 33 anos que não se apresentavam juntos, e o último registro conhecido de um abraço deles no palco é de 1985, em Malmö, na Suécia. Agora estava pequenininho, esse guitarrista que sempre pareceu maior do que sua estatura, autor de alguns dos riffs mais conhecidos do rock e alguns dos solos mais copiados pelas gerações seguintes. E afável, ao contrário de sua fama de estar sempre de cara amarrada.

Por seis minutos, Blackmore, Gillan, o baixista Roger Glover e o baterista Ian Paice realizaram o sonho de fãs ao redor do mundo de rever ao menos 80% da formação clássica do Deep Purple tocando “Smoke on the Water”, ainda que numa versão mais lenta do que o usual. Mesmo tendo seus nomes impressos juntos em capas de disco desde 1969, nas últimas três décadas o guitarrista só falava com os outros sobre gestão de direitos autorais, por meio de empresários e advogados. Jon Lord, o tecladista fundador da banda, morreu em 2012. Um reencontro a essa altura da vida sempre é urgente: sabe-se lá quantos ainda estariam no palco caso essa canja fosse também adiada.

Richard Hugh Blackmore começou sua carreira na música aos 18 anos. Fez uma turnê ao lado de Jerry Lee Lewis e passou as obrigatórias temporadas na zona portuária de Hamburgo, tocando em cabarés como os Beatles. Tocava o que houvesse de mais rápido, até o Tico-Tico no Fubá. Aos 20 anos, já era demandado para frilas de estúdio tocando nos discos alheios, às vezes sem receber crédito. Aos 22, estava em Hamburgo novamente quando foi convidado para criar uma banda inovadora com o imponente tecladista Jon Lord e o encapetado baterista Ian Paice – era a primeira formação do Deep Purple, que incluía longos intervalos instrumentais e citações a trechos de música clássica. 

Em 1969, o sucesso ainda não tinha chegado. Quando Blackmore ouviu a estreia do Led Zeppelin, resolveu trocar o crooner Rod Evans por alguém de voz mais potente. O amigo baterista Mick Underwood, morto em 2024, lhe indicou Ian Gillan, que trouxe o baixista e compositor Roger Glover. Foi então que a banda começou a estourar. Tendo sido discípulo do performático Screaming Lord Sutch, Blackmore tocava de maneira teatral. Jogava a guitarra no ar, tocava com a sola do sapato, arranhava as cordas como se tivesse garras, alternava momentos calmos com a fúria das notas. No auge do sucesso, chegou a botar fogo em amplificadores e destruir uma câmera a golpes de guitarra. Seu ímpeto e suas sacadas musicais foram a inspiração para o heavy metal que viria depois: Van Halen, Iron Maiden, Metallica e outros beberam da fonte que Blackmore ajudou a abrir.

Ele era um espetáculo tão imperdível que começou a decidir a demissão de colegas, com o apoio tácito dos outros, e resolveu cair fora quando a banda não aceitou gravar uma música que ele queria muito. Então formou a banda Rainbow, onde ele mandava e desmandava. Fez grande sucesso no rádio no começo da década de 1980, mas não era o Deep Purple. Em 1984, o Deep Purple voltou, e o empresário deles era o mesmo do Rainbow. Isso facilitou que Blackmore impusesse sua vontade. Era implacável, e na prática a banda era dele. Em 1989, demitiu Gillan.

Os membros da formação mais conhecida do Deep Purple dividiram um palco pela última vez em 17 de novembro de 1993, em Helsinque, quando Blackmore e Gillan tinham 48 anos e Glover estava quase lá. A imprensa só soube que era a última apresentação depois do fato. O genial e genioso guitarrista, fundador e até então líder incontestável do grupo, tanto fez para sabotar a volta de Gillan ao Deep Purple, imposta pela gravadora BMG, que acabou sabotando a si próprio.

A ideia de uma queda de braço entre Blackmore e Gillan estava expressa desde o título do último disco que gravaram juntos, “The Battle Rages On”, cuja capa mostrava um dragão com um só corpo e duas cabeças engalfinhadas passando pela logomarca do grupo. Dias antes do derradeiro show, Blackmore estava com a pá virada. Entrou no meio da primeira música, pegou um copo d’água e disparou contra um cameraman, encharcando no processo as mulheres de Gillan e Glover. 


 

Naquele momento, Blackmore perdeu o apoio de toda a banda, que fez questão de lançar esse show em vídeo com depoimentos de todos os remanescentes entre uma faixa e outra. 

(Anos mais tarde, quando a gravadora lançou a íntegra daquela apresentação em CD, Gillan deu uma entrevista ao “The Guardian” pedindo que os fãs não comprassem o disco por ser o pior momento deles. O título da entrevista, em vários sites, foi “Não comprem nosso disco, diz Deep Purple.”)

Numa derradeira tentativa de sabotar os colegas, o guitarrista rasgou seu passaporte para desistir definitivamente das datas marcadas no Japão no mês seguinte. Rapidamente, os outros decidiram seguir em frente com outro guitarrista aclamado, mas sorridente – Joe Satriani – para concluir a turnê. Depois, recrutaram o solar Steve Morse pelos 28 anos seguintes. Até 2014, foram a banda internacional que tocou mais vezes no Brasil, em longas turnês que chegaram a Santo André, Santa Bárbara D’Oeste e até Goiânia. Um site humorístico chegou a brincar que a banda pediria cidadania brasileira para não precisar mais pedir visto. 

Depois de perder o Deep Purple, Blackmore praticamente se aposentou do rock, tocando craviola em discos de pop de inspiração renascentista com sua mulher, atraindo um público de nicho. Se alguém aparecesse a algum show seu com uma camiseta do Deep Purple, os assistentes lhe davam de presente uma de Blackmore’s Night e pediam que por favor o fã a vestisse imediatamente. Blackmore e Gillan passaram duas décadas trocando farpas em entrevistas, não raro resvalando na baixaria e ameaças de agressão.

Quando alguém perguntava aos membros do Deep Purple sobre um reencontro com Blackmore, a resposta era sempre de que seria impossível, primeiro porque o guitarrista não fala com ninguém e segundo porque a vida estava boa. Os ex-colegas lembravam os trotes pesados que Ritchie gostava de aplicar, bem como de exigências como as de sempre ter o maior cachê e o melhor camarim. Em 2016, quando a banda foi homenageada pelo Rock’n’Roll Hall of Fame, ele se recusou a ir dizendo que foi excluído. Todos da banda disseram que ele seria muito bem-vindo para uma canja caso aparecesse lá. Como ele não foi, David Coverdale e Glenn Hughes, ex-membros da terceira formação, também não foram convidados a dar uma canja, levando a uma década de dissabores da parte dos preteridos.

Tudo indicava que Blackmore e seus colegas só voltariam a se encontrar se o inferno congelasse, mas pelo jeito só foi necessário um eclipse solar seguido de chuva de meteoros no mesmo dia, como ocorreu no hemisfério norte em 12 de agosto de 2026.

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O Jones Beach Amphitheater é um tradicional local de espetáculos para 15 mil pessoas em Long Island, no Estado de Nova York. Na noite de 11 de agosto, ainda havia muitos ingressos disponíveis para o show da noite, que antes do Deep Purple ainda teria o Kansas (de “Carry On My Wayward Son”) e Vanilla Fudge, uma inspiração da primeira formação do Deep Purple, em 1968.

Sofrendo de complicações da gota, Blackmore decidiu neste ano que só se apresentaria nas imediações de Long Island, onde vive com a mulher, a cantora Candice Night, e os dois filhos adolescentes do casal. Mesmo assim, cancelou as últimas datas que marcou devido a uma emergência cardíaca. 

Na noite de terça, Candice postou em suas redes sociais que ela e Ritchie fariam um anúncio importante. Abriram uma live esquisitíssima no Instagram, com a câmera bloqueada. A tela estava toda preta e só se ouvia as vozes do casal – “não estamos vestidos pra isso”, disse Candice. “Estou até de meias furadas”, disse Ritchie, famoso pela cara amarrada no palco mas dado a fazer troça nas lives que sua mulher o convence a fazer. Por alguns minutos, Candice saudou fãs da Colômbia, Argentina e México. Blackmore respondeu minúcias sobre seu equipamento e disse que não usava mais suas botas de couro de cobra porque, devido à gota, seus pés não cabem mais nelas. A cantora então disse que precisavam falar de algo muito importante: Blackmore se apresentaria ao lado do Deep Purple na noite seguinte. Até havia ido a um médico para tomar uma injeção de esteroides e assim poder ficar em pé no palco. “Mandei um recado por pombo-correio de IA ao Ian Gillan perguntando se eu poderia ir e ele topou”, disse. 

Durante a madrugada, os grupos de fãs do Deep Purple e de Blackmore (muitos dos quais dizem que não existe Deep Purple sem Blackmore) entraram em polvorosa. Será que ele iria mesmo? Será que tocaria só Smoke on the Water ou arriscaria alguma outra coisa? Tentaria Child in Time para provocar Ian Gillan, que foi parar no hospital depois de cantar a música pela última vez em 2002? Será que haveria tensão? Ele daria conta do recado?

Rich Shailor, um velho policial, fã e amigo da banda, conseguiu comprar um ingresso e se preparou para dirigir quatro horas para ir e outras quatro para voltar. Cliff “Cooky” Crawford, hoje bombeiro, foi especialmente convidado por ter sido assistente de Blackmore na época da reunião do Deep Purple em 1984. 

Apenas quando Candice publicou uma foto do Deep Purple em círculo, com Blackmore de costas e Gillan ao seu lado, tocando em seu ombro, é que muitos acreditaram: era verdade. 

 
Nathan Beaudry, apresentador do Deep Purple Podcast, foi e ficou na segunda fila. É dele o vídeo mais revelador daquela apresentação (no topo deste texto). Ele capta em alta qualidade o momento em que Blackmore está prestes a entrar no palco. O guitarrista hesita, enquanto seu mais recente sucessor, Simon McBride, toca o primeiro acorde de sol do riff mais famoso do mundo e gesticula para a plateia dizendo para esperar. Candice argumenta com Blackmore, e a última palavra é um claro e enfático “AGORA!”. 

Na coxia, logo atrás de Candice, estava Sally Day, atriz e assistente de Ian Gillan. O vídeo que publicou no Facebook capta o momento em que o roadie de Blackmore o empurra para o palco com firmeza gentil. Por muito pouco, pelo jeito, o lendário patriarca do metal não amarelou. O tecladista Don Airey, que tocou com Blackmore no Rainbow no começo dos anos 1980, faz uma reverência que não aparece em nenhum outro vídeo pego de frente. 

Blackmore entra no palco meio sem jeito, de chapéu na mão, sem nada da altivez do passado. Procurou um amplificador onde deixar seu chapéu e foi checar o equipamento de McBride, que tem hoje a idade que ele próprio tinha ao perder a banda que batizou com o título da música favorita de sua avó. Cumprimentou-o, comentou algo sobre sua pedaleira e ambos deram risada. 

Devagar, deixou o canto direito do palco, onde reinou durante suas passagens pelo Deep Purple e pelo Rainbow. No centro do palco, encontrou Ian Gillan, Roger Glover, o tecladista Don Airey (Blackmore já teve a ocasião de demitir uma vez cada um), e o baterista Ian Paice, única pessoa a ter estado em todos os shows que o Deep Purple fez desde 1968. Blackmore e Gillan apontaram um para o outro, sorrindo. 

Antes de alguém tentar qualquer abraço, Blackmore baixou a cabeça e começou a tocar o riff que até hoje paga parte das suas contas: tã, tã, tã; tã tã tarã…

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Quando o Deep Purple e o rock britânico estavam em seu auge, no final dos anos 1960 e começo dos 1970, o imposto de renda britânico era particularmente severo com quem ganhasse muito bem, e ninguém tinha renda tão alta quanto as estrelas do rock. A faixa mais alta chegava a arrecadar 95% dos rendimentos excepcionalmente altos, como escreveu George Harrison na letra da canção “Taxman”. 

Por essa época, um empresário dos Rolling Stones descobriu que, se um disco fosse gravado fora do país, o Fisco teria menos a cobrar. Então, mandou construir um estúdio móvel dentro de um caminhão que se deslocaria para onde fosse necessário para pagar o mínimo que pudessem. Foi a época em que os Stones foram se exilar no litoral francês. Além de reduzir a parte do Leão, também foi uma nova fonte de renda para a banda. Em dezembro de 1970, o Led Zeppelin alugou o caminhão para gravar numa granja do interior da Inglaterra o que seria seu quarto disco, o de “Stairway to Heaven”. Um ano depois, o Deep Purple levou o caminhão para Montreux, na Suíça, à margem do lago Genebra.

A ideia era singela: gravar um disco de estúdio sem a pressão de um estúdio. Usariam para isso o belo cassino de Montreux, onde desde 1967 o promotor Claude Nobs fazia um festival de jazz que existe até hoje. O Deep Purple já havia inclusive tocado nesse festival em 1969, logo na chegada de Gillan e Glover, e poucos meses antes, em 1971 mesmo. O som do local era incrível. Antes de liberar o local para que a banda gravasse, haveria um último show, de Frank Zappa, ao qual o Deep Purple foi convidado a assistir. Em um dado momento, alguém na plateia disparou um sinalizador dentro do prédio, incendiando o teto de palha. Só não aconteceu uma tragédia como a da boate Kiss porque a banda interrompeu a música e Frank Zappa pegou o microfone para avisar:

FOGO! Arthur Brown, em pessoa! Senhoras e senhores, dirijam-se com calma até as saídas. 

Ninguém se feriu, mas o prédio veio abaixo e a coluna de fumaça se estendeu por sobre o lago. O Deep Purple então precisou arrumar outro lugar para gravar. No primeiro, conseguiram gravar uma base com um riff simples enquanto a polícia batia desesperadamente na porta porque muitos moradores da pacata cidade reclamaram do barulho de madrugada. Acabaram se instalando no Grand Hotel, um pouco afastado da cidade e fechado para reformas. O caminhão não passava pela porteira, então foi preciso fazer uma série de gambiarras para gravar o disco. Certa noite, Roger Glover sonhou com o título “Smoke on the Water” (fumaça sobre a água). Gillan escreveu uma letra contando as peripécias daquela semana desde o incêndio e eles gravaram a voz sobre a base registrada quando a polícia estava à porta.

Para todos os membros da banda, a “música do dan-dan”, título provisório da base instrumental, não era o melhor que tinham a apresentar no disco “Machine Head”, lançado em março de 1972. Quando tocaram no Japão, em agosto, perceberam o sucesso. A gravadora lançou um compacto tendo de um lado a versão de estúdio e do outro a versão ao vivo no Japão. E foi assim que o riff se tornou um dos mais reconhecidos do mundo.

Com quatro acordes simplificados, o riff lembra bastante a introdução escrita por Tom Jobim para “Maria Moita”, composta por Carlos Lyra para o musical “Pobre Menina Rica”, de 1964. Não existe qualquer indicação de que Blackmore conheça conscientemente a música brasileira. Ele mesmo diz que criou o riff a partir da abertura da Quinta Sinfonia de Beethoven. 

Smoke on the Water virou um hino extraoficial de Montreux a tal ponto que a banda sempre toca por lá em datas redondas. Em 1996, nos 25 anos do incêndio, apresentou o guitarrista Steve Morse, que cuidaria das cordas finas da banda até 2022. Em 2006, nos 35 anos, as imagens estilizadas de Glover, Gillan e Paice foram parar nos cartazes do evento. Em 2011, eles levaram uma orquestra. Em 2016, recriaram o incêndio com fogos de artifício. Em julho último, nos 55 anos do incêndio. Blackmore por várias vezes foi convidado pelo evento a participar, mas nunca topou.

No palco, ao dar sua última canja com os velhos colegas, Blackmore aproveita que McBride também está tocando o riff para fazer floreios que nunca antes fez. E deixa de tocar a introdução em certo momento para verificar, com pose de bedel, se o jovem sucessor está tocando direitinho. Faz sinal de aprovação e volta a tocar.

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A música dança com a noção de tempo na mente de quem ouve. Ouvir música faz o tempo voar, faz o tempo parar e também faz o ouvinte voltar no tempo. É por isso que ela faz tanta parte da nossa vida.

O solo de "Lady Double Dealer" me leva de volta aos 13 anos, tocando guitarra no ar ao voltar da escola. Ver o clipe de "King of Dreams" no Tele-Ritmo em 1991 foi um grande momento da vida. A fita com a gravação de "In Concert 1970-1972" era o que eu ouvia indo para a faculdade. Quando vim morar em São Paulo e passei sozinho o primeiro réveillon da minha vida, na virada de 2000 para 2001, ouvi o segundo Concerto for Group and Orchestra a todo volume, sozinho no apartamento escuro. "Above and Beyond" estava comigo quando minha mãe morreu. "Throw My Bones" foi a trilha sonora da primeira vez em que saí de casa no meio da pandemia. Na Alemanha, minha mulher foi comigo a um show deles pela primeira vez e se emocionou quando viu entrarem no palco os velhinhos de quem falo mais do que do meu pai.  

Todos os fãs de rock de uma certa idade viram seus pais e tios envelhecerem ou morrerem. Olham-se no espelho e veem com naturalidade os sinais da própria idade. Mas nossos músicos favoritos terão eternamente 25 anos nas suas gravações consagradas, e não raro vem daí alguma dissonância. Fotos esmaecem, gravações em alta definição não.

Quando Ian Gillan anunciou que tinha perdido a maior parte da visão devido a uma retinopatia, muitos na internet debateram como ele tinha coragem de continuar se apresentando, especialmente porque há anos ele não dá mais os gritos atléticos da juventude. “Não canto com os olhos”, disse ele em entrevista ao The Telegraph em Montreux. Ele faz mais pausas durante os solos, mas não deixa de cantar – descobriu outras áreas de sua voz, saboreia mais as palavras. O anúncio de sua cegueira parcial explicou por quê, na turnê de 2024 pela Alemanha, ele caminhava até o lado de seu mais antigo amigo, Roger Glover, e ficava apenas parado olhando o público. Estava absorvendo o que pudesse da sua paixão enquanto ainda tinha metade da visão. 

Na última vez em que a banda esteve no Brasil, no ano passado, perguntei a Roger Glover como mantinha seus joelhos tão saudáveis. À beira dos 80, ele tinha passado duas horas pulando com quatro quilos de madeira e arame pendurados no pescoço, enquanto meus pés estavam escangalhados por ter ficado duas horas em pé assistindo ao show. “Eu não sei como consigo, só pode ser por causa da energia que vem do público”, respondeu. 

Em 2026, roqueiros octogenários lançaram excelentes discos novos, criativos e empolgantes. Paul McCartney lançou em março “The Boys of Dungeon Lane”, cujas letras refletem sobre a passagem do tempo desde que ele, John Lennon e George Harrison eram adolescentes e pegavam a balsa para aprontar em outra cidade. O próprio Deep Purple lançou “Splat”, no começo de julho, com letras em que Ian Gillan expõe sua bronca com a necessidade de ficar provando a robôs que é humano, filosofa sobre a reinvenção da humanidade após o fim – e volta a arriscar seus gritos como os de antigamente, ao menos no estúdio. Logo depois, os Rolling Stones lançaram o disco “Foreign Tongues”, em que Paul McCartney toca baixo em uma das faixas. Enquanto a saúde permitir, os rocktogenários não vão deixar o palco. Ninguém faz tão bem quanto eles. 

Às vezes, a saúde não permite. David Coverdale, que ganhou projeção no Deep Purple entre 1973 e 1976 antes de criar o Whitesnake, parou de se apresentar na pandemia, quando teve complicações pulmonares, e virou um tiozão do pavê no Twitter, postando pegadinhas do Ivo Holanda e conversando com fãs. Já deu cinco estrelas a uma apresentação minha no karaokê cantando “Here I Go Again”. No ano passado, jogou a toalha e anunciou que estava, sim, aposentado. Pouco depois, fez um vídeo triste, anunciando que também deixaria de lado as redes sociais. Glenn Hughes, que fazia duetos com ele no Deep Purple e manteve a voz quase intacta até os 70 anos, também antecipou seus planos de aposentadoria devido a um procedimento cardíaco de emergência. 

Envelhecer tem seus percalços, mas ainda é muito melhor do que a alternativa. Tommy Bolin, o segundo guitarrista do Deep Purple, perdeu a chance de ser um rocktogenário porque morreu aos 25 anos, em dezembro de 1976. Nunca saberemos o que ele, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison teriam gravado caso tivessem vivido mais. Quem não entrou para o “Clube dos 27 Anos” escala a pirâmide etária até a idade em que os maiores riscos são doenças cardíacas e cânceres, como o de pâncreas que levou o fundador do Deep Purple Jon Lord em 2012.

O Deep Purple, assim como Paul McCartney e os Rolling Stones, escolheu envelhecer à vista do público, mostrando cada nova ruga e fio de cabelo branco. Eles envelhecem assim como nossos parentes mais velhos. Nem nossos parentes, nem nossos ídolos, são invencíveis como pareciam em nossa juventude. Mas fazem o que podem. 

Roger Glover diz que o Deep Purple nunca vai marcar um “último show” como tantas vezes já fez o Black Sabbath. Vão parar quando algum dos três mais antigos membros – ele, Gillan ou Paice – não puder mais tocar. Só saberemos qual foi o último show do Deep Purple depois que já tiver sido. Será menos anunciado do que o reencontro com Blackmore. E assim é a vida, frágil e imprevisível.

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Ritchie Blackmore não é um homem alto, mas sua postura e a distância que impunha aos colegas o faziam parecer muito maior do que sua estatura. Ao reencontrar no palco os velhos colegas, ele era o único que ainda ostentava a cabeleira artificialmente escura de há 30 anos e ainda assim era quem parecia mais envelhecido dentre todos. (Talvez eles apenas enganem melhor do que Blackmore.)

Essa fragilidade afável que demonstrou não impediu Blackmore de sugerir que ele ainda era o mesmo. Na hora em que deveria entrar o baixo ou a bateria, ele erguia a mão como nos velhos tempos, quando parecia que era ele quem mandava os colegas entrarem. Mesmo em missão de paz, deu pequenas alfinetadas. Num dos versos, Ian Gillan veio cantar ao seu lado, com a mão em seu ombro. Blackmore olhou para ele e apontou o dedo para a própria boca, como quem diz “você não canta mais do mesmo jeito”. Gillan apontou para a cabeça do antigo rival, como quem diz “não, você é que tá maluco”. Depois, Ritchie pegou a mão de Gillan e a usou como palheta, batendo ritmicamente nas cordas. 

Ao tocar pela última vez o solo de Smoke on the Water, Blackmore desviou da linha melódica que escreveu em 1972 e que seus sucessores desde Satriani procuraram repetir quase nota por nota. Seus solos sempre foram do tipo que podia ser cantado, e ele os toca como quem conta uma história. Certa vez, numa entrevista, perguntaram a Blackmore o que ele achava dos guitarristas que tocavam dezenas de notas por segundo nos anos 80 e 90 – o mais exagerado de todos, Yingwie Malmsteen, copiava até sua vestimenta. “Eles não procuram a nota”, observou. Com os dedos menos firmes devido a uma artrite, ele não procurou a rapidez, e sim uma nova melodia. Nota por nota, como quem pensa cada palavra do que quer dizer, Blackmore contou outra história no meio de Smoke on the Water. 

Ao final da canção, abraçado ao velho amigo, Gillan pediu que o público saudasse “a grande lenda, o imortal Ritchie Blackmore”. Enquanto o cantor dizia que logo eles se encontrariam no bar, Ritchie lhe entregou a pesada Fender Stratocaster 1989 para segurar enquanto ia cumprimentar o público. Deu um abraço em Roger Glover, alvo de seus piores trotes da juventude, deu as costas e foi para os bastidores. 

Talvez, apenas talvez, essa tenha sido a última apresentação do patriarca do heavy metal. Mas, como sabe cada fã, os rocktogenários são muito teimosos.




sexta-feira, 21 de julho de 2017

E se fôssemos montar um Deep Purple hoje?

Vi que criaram um grupo de trapalhões novo, incluindo o filho do Mussum. Achei ridículo.

Aí, agora há pouco, estava vendo Lachy Doley tocar um mashup de Lazy e Green Onions no teclado. Pensei com meus botões: ora, os tios estão velhinhos e querendo se aposentar; se criassem um novo Deep Purple só com músicos jovens, esse seria o cara para a vaga do Jon Lord.

Ouve o som do cara e sugere aí nos comentários quem mais poderia fazer parte, com link de vídeo do YouTube.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Minha resenha de Infinite (e todas as anteriores)

O blog Purpendicular fez 15 anos em fevereiro. Nem parece. Começou no início da Mk8, quando houve a última turnê do Jon Lord. Desde então, resenhei todos os lançamentos do Deep Purple, ao menos os de estúdio.

A de Bananas (2003) eu escrevi originalmente para o Omelete.

A de Rapture of the Deep (2005) levei uma semana ouvindo até fazer aqui.

A de Now What?! (2013) fiz no Facebook, porque o blog estava em recesso.

A de Infinite (2017) fiz no Facebook e faço aqui.


"Bom fim de semana!" E aí, quem mais já ouviu o Infinite?

Minha cópia física, com DVD e camiseta, está em algum ponto entre Hamburgo e São Paulo. Eu esperei meia-noite e fui olhar o Vivo Música, que assino. Nada. meia-noite e cinco, fiquei furioso e assinei o Spotify. Quase cancelei o Vivo Música, mas minha mulher gosta. Saco. Mas, enfim, ouvi duas vezes antes de dormir e uma agora de manhã na esteira.

A primeira foi especial. Assim como quando saiu o Now What, tomei um banho antes de ouvir. De luzes apagadas, defronte à janela, olhando a chuva cair, como naquele 13 de abril de 2013, pra ouvir cada nota. Melhor do que meditação.

Minha impressão geral sobre o disco: grande álbum, belos riffs, solos familiares mas bons, só não curti a quantidade de ecos e efeitos darth vader na voz do Gillan - fica ruim de entender as letras. Não é tão bom quanto o Now What, mas é um baita disco. (Faço questão de não comparar a produção dos tios sessentões com a deles moleques.)

Achei curioso que Paradise Bar não está no disco. Mas já está no iTunes há algum tempo, vale comprar como extra. Time for Bedlam e All I Got is You eu já tinha ouvido muitas, MUITAS vezes nos últimos meses. Gosto, mas estava querendo ouvir o que eu não conhecia. Ao contrário de Hell to Pay em Now What, desta vez eles ficaram nos devendo solo extra de teclado como o que teve em Hell to Pay, que também já era bem conhecida ao sair o Now What.

Time for Bedlam - Acho uma das músicas mais fortes, de música e letra, que eles fizeram na maturidade. Quando saiu, eu não sabia o que achava do "canto gregoriano" do Gillan no começo e no final. Hoje acho que não gosto muito. É a primeira de várias vezes em que ele usa efeitos na voz, o que eu acho bem desnecessário. Mas gosto do que ele declama nessas partes.



Hip Boots - baita riff. Gosto dessas pausas dramáticas. Já tinha sido experimentada ao vivo. Tem um belo potencial, suponho.



All I Got is You - a letra parece meio que de briga com a mulher, não? Gira os olhos com a mão na cintura quando o cara vai encher a cara com os amigos etc. O maior destaque aqui, pra mim, está nos solos. Airey no sintetizador sai da sombra do Lord, mas depois traz a tradição de hammond de novo pra deixar bem claro que aqui é Purple.


One Night in Vegas - gosto da costura do instrumental, e temos uma clássica letra do Gillan contando causos

Get me Outta Here - acho que esta é minha faixa favorita no disco, ainda que eu tenha pego pouco da letra por causa dos efeitos. Se no Now What a grande revelação era Airey começando a sair da sombra do Lord, neste disco o Paice está soltinho, e aqui é um belo exemplo. Não sei se é por desaforo ao derrame que teve no ano passado. Bateria meio Jack Ruby. Riff pesadão. Gillan solta um grito daqueles, pra gente matar a saudade, parecendo ter saído direto de "Money Lender". E no final ele se despede em várias línguas, inclusive português perfeito ("Bom fim de semana!"). Em 2014, quando o entrevistei, perguntei a ele se ele falava português, já que tem casa no litoral português e sempre vem ao Brasil. Ele disse: só frases normais de cortesia, bom dia, bom fim de semana...

The Surprising - é uma faixa surpreendente. Lembra filme de caubói dos anos 70, não? Aquela guitarra, aquela bateria. Só falta sair o Clint Eastwood com um cigarro no canto da boca e duas armas nas mãos. Efeito de gravar em Nashville? Mas a letra é sobre pesadelos. Bonita música, gostei, mas não sei se vai estar entre minhas três favoritas do disco. Só ouvindo mais.

Johnny's Band - já vinha tocando na BBC, e o Fernando Mattedi me mandou outro dia. Muito boa, divertida, boa levada. Riff simples mas eficiente.

On top of the world - adorei o começo, bela levada também. Efeitos de voz demais, porém. Tem uma parte narrada em que baixa o Darth Vader.

Birds of Prey - riff malandro, pesadinho e lento; Airey cósmico. Muito efeito de eco na voz do Gillan. Mas se bobear é uma das melhores faixas do álbum.

Roadhouse Blues - aqui é churrasco com os amigos. No começo achei meio estranho eles fazerem cover, mas azar. Gostei do resultado. Gillan canta a letra do jeito dele, não do jeito do Jim Morrison. O começo é empolgante, um instrumento entrando por vez. E a última frase da letra ("the future's uncertain and the end is always near") tem muito a ver com o que eles têm dito sobre o fato de ser um disco de despedida, ou não.

Com 70 e tantos anos nas costas ou logo à frente, levar mais oito anos pra fazer um disco, como eles demoraram entre Rapture e Now What, deixa de fato o futuro incerto. Com um amigo enterrado e a idade mostrando suas garrinhas com mais força (adoro observar o quanto eles não escondem a coroíce no vídeo de All I Got is You), a ideia de que o fim está sempre perto deve estar sempre em mente.

É um disco muito melhor do que qualquer coisa que se poderia esperar de uma banda que está pensando em parar de tocar. Mas, claro, sendo o Deep Purple eles obviamente não estão - só vão dar mais uma volta ao mundo, ou duas, ou três, antes de dar uma maneirada. Glover disse em entrevistas recentes que ainda tem alguns lugares do mundo que ele quer ver antes de sossegar o facho.

Pelo que andou circulando, parece que em outubro é a nossa vez. Vamos tentar ver mais de um show enquanto eles estão por aí. Geralmente eu vou a um só por turnê, sempre acho que 1) estou velho demais pra ir a mais de um show numa semana e 2) eles vão voltar. Considerando que eles são um tanto mais velhos do que eu e podem não voltar, eu vou fazer o possível pra ver mais de um.

Obrigado, Ian Gillan. Obrigado, Roger Glover. Obrigado, Ian Paice. Obrigado, Steve Morse. Obrigado, Don Airey. Tiro meu chapéu para vocês como sempre nas últimas quase três décadas.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Episode Six, 50 anos

Em dezembro, os membros originais do Episode Six - incluindo Gillan e Glover - se reuniram em Londres quando o Purple fazia turnê por lá. Uma alma caridosa postou "Morning Dew", e o grande Nigel Young indicou.

Assim são eles hoje:


Assim eram eles há meio século:




Para diversão, vamos comparar com outros?

Aqui, temos Jeff Beck em seu disco de 1968, com Rod Stewart no vocal:

Aqui, Nazareth:

E que tal o Grateful Dead?
 

Aqui, a versão que Robert Plant gravou em 2002:


Aqui, Robert Plant canta com a compositora da música, Bonnie Dobson. A letra é levemente diferente da que todo mundo cantava nos anos 60:

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Now What?!, há quatro anos

Em 2013, quando o Deep Purple lançou o "Now What?!", este blog estava em recesso. Dia 25 de abril de 2013, quando o disco entrou no iTunes, baixei, ouvi e fui postando faixa por faixa na versão Facebook deste blog. Para mim, "Now What?!" é provavelmente o disco mais bem pensado da Mk8, ainda que eu goste de todos. Como não postei na época, reproduzo aqui, postando retroativamente.



Chegou.

A Simple Song: Porrada nas zoreia. Ouça com fones a todo volume. Mas daqueles internos, pra não cair. Porque sua cabeça não vai ficar parada.

Weirdistan: baixo assustador. Teclado gigante. Guitarra cortando. Nunca ouvi a bateria tão claramente. Gillan se divide em três, todos eles geniais. Vale aquilo dos fones, pague o otorrino depois. Sai barato perto desse troço.

Out of Hand: a introdução me remete ao Psicose, mas aí vem o riff - sério candidato ao CQC usar como vinheta, como usa uns dos últimos dois discos. Som bem moderninho, tios. Podia ser clipe da MTV nos anos 90 fácil. Haja volume nesses fones.

Três por vez. Não quero morrer do coração.

Hell to Pay: a história dos revolucionários de sofá que proclamam não ser representados pelo feliciano e fazem comentários em blog com adjetivos terminados em alha. Versão do disco muito melhor que a do single. Os tios se puxaram.
Body Line: coisa mais boa. A jam do começo promete se entrar no show. Refrão achei meio caidinho, mas a música tem umas paradinhas legais. Solo divertido do Morse, Airey mandando ver com os lados das mãos. O riff é excelente.

Above and Beyond: Gillan escreveu no dia em que o Lord morreu. É como se ele estivesse psicografando um recado do amigo. Coisa linda esse teclado.

Blood from a Stone: voz do Gillan maduro é o destaque. Bela faixa.

Uncommon Man: outra homenagem ao Lord. Forte trabalho. Foi usada num dos previews, naquele primeiro, muito empolgante. Coisa genial. É a resposta da banda a "De Profundis", do primeiro solo do Lord pós-Purple. Gillan: "who says you can't have it all? It's good t be king" lembra minha entrevista com o Lord.

Après Vous: Glover segurando no baixo a piração de Airey e Morse é fabuloso.

All the Time in the World: o pulso ainda pulsa.
Vincent Price: o tecladista que compôs a introdução de Mr. crowley finalmente veio substituir Jon Lord na banda!!! riff porrada, vi gente comparando com No More Tears. Tem uma pegada de rock horror, como diria Sérgio Chapelin. Pombas, o disco abre com uma porrada nas zoreia e termina com outra.
It'll be Me: caraca, o que é essa voz grave??? Coisa que o Gillan tocava com os Javelins. Sempre legal ver os tios atualizando o que ouviam quando moleques.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

No Facebook

Não tenho conseguido tempo pra postar decentemente no blog. Ao mesmo tempo, as melhores informações sobre o Deep Purple eu tenho recebido via Facebook, onde consigo seguir membros, ex-membros e colaboradores do Purple e bandas pelas quais seus membros passaram. Assim, para fazer atualizações rápidas, criei a página do blog Purpendicular no Facebook. Visite, curta, acompanhe. Quando eu for escrever coisas mais longas, autorais, sobre o Deep Purple, escrevo aqui. Estou com uma engatilhada sobre o Made in Europe, a partir dos comentários no post anterior.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Jon Lord, a vida, o universo e tudo mais




OK.

Tomei aqui minha taça de vinho em homenagem a Jon Lord. Era de vinho tinto que ele gostava, e o homenageei com um Malbec. Aguentei calado e sem chorar uma lágrima sequer enquanto assisti ao mais privilegiado DVD de Jon Lord que eu tenho: a gravação bruta da minha entrevista com ele, em 2009, que inclui trechos do ensaio de "Soldier of Fortune". Eu dava risada vendo ele rir comigo.

Tudo o que valia a pena dizer ao público em geral sobre a carreira do Jon Lord eu escrevi no obituário que fiz para o site da Folha: "Jon Lord foi um pioneiro na fusão entre o rock e o erudito". Sim, Jon Lord me ensinou que não existem gavetas na música - existe música boa e existe música ruim. Música ruim você sabe o que é, ela abunda. Mas música ruim não me interessa, só me interessa música boa e é dela que eu falo quando falo de música.

Aqui no Purpendicular, porém, estamos entre amigos. Mais do que isso: entre órfãos. Noves fora Tommy Bolin, que morreu na cabalística idade de 27 anos, Jon Lord foi apenas o primeiro dos membros do Deep Purple a nos abandonar por complicações decorrentes da vida. É triste pensar nisso, mas ele é apenas o primeiro. Nos próximos anos, a fila deve andar - tomara que demore, mas infelizmente vai. E saber que a gente também está na fila é assustador.

Como dizia Jorge Luis Borges, morrer é um costume que sabe ter toda gente. Quem tem quem? A gente tem o costume ou o costume que tem a gente? Tendo a achar que é ele.

A música de Jon Lord ("To Notice Such Things", especialmente "Afterwards", cujo poema está aqui e a música está abaixo) me ajudou a aceitar a morte do meu tio favorito, quase um pai pra mim, quando ele morreu de câncer no ano passado. Por isso e por tudo mais, minha primeira reação quando soube da morte do Jon foi de incredulidade.



A segunda reação foi de inconformismo. Escrevi no Facebook que nossos heróis, porra, nossos heróis não deviam ter esse direito. Deviam ser todos como aqueles meus heróis de papel, como os Supermen e os Batmen e os Capitães América, que morrem e poucos meses depois acham um roteirista mentiroso o suficiente pra encontrar uma desculpa pra trazê-los de volta.

Só que não tem jeito. Por mais geniais que sejam nossos mestres, e Jon Lord era uma das cabeças mais brilhantes com as quais tive o privilégio de aprender (seja em discos, seja em DVDs, seja assistindo ao vivo, seja nos curtos minutos da nossa entrevista de 2009), todos um dia nos abandonarão e deixarão este planeta mais burro, mais imbecil, mais boçal.

Eu estava vendo o Concerto for Group and Orchestra de 1999 e filosofando um pouco no ouvido da minha mulher quando conseguia completar uma frase sem me desfazer. Demorou um pouco.

Somos muito egoístas com esses que admiramos. Egoístas demais. Vemos Ian Gillan no palco e decretamos: "não canta mais nada". Vemos Blackmore tocando como coadjuvante da patroa e cobramos: "pombas, cadê a Fender?". Vemos Jon Lord morrer de câncer, uma doença dolorosa, cruel, e não nos conformamos. Não damos a eles o direito de seguir o curso da vida, de envelhecer, de ficar de saco cheio, de morrer.

Na nossa cabeça, nossos heróis deviam viver pra sempre.

Na nossa cabeça, nossos heróis deviam ter pra sempre vinte e poucos anos, como os heróis dos gibis.



Neste momento, na tela de LCD à minha frente, Jon Lord é um moleque mais jovem que eu e faz dueto com Blackmore na melhor fase do Deep Purple. Neste momento, aqui na minha sala, um fragmento da noite de 21 de agosto de 1970 vive na gravação de "Speed King" em "Doing Their Thing".

Mas ainda hoje à tarde eu estava no trabalho, incrédulo ao saber da morte de Lord aos 71 anos.

Ainda ontem, eu tinha 14 anos de idade e descia a Plínio Brasil Milano ouvindo Deep Purple no meu walkman paraguaio. Cantando junto a cada passo. Esses 21 anos voaram perante meus olhos e quando vejo o Jon Lord está morrendo de complicações trazidas pela idade. Num flash, de repente eu tenho 35 anos, 103 quilos e gastei uma fábula com discos e DVDs dos meus mestres.

Poucos minutos atrás, eu tinha 25 anos de idade e abri um blog especializado em Deep Purple. A banda estava numa fase de indefinição - parecia que Jon Lord ia se aposentar. Será que iria? Lembro como se fosse ontem dos meus amigos reclamando no meu velho blog do tanto que eu falava do Deep Purple. Lembro da minha ansiedade de saber cada movimento da banda. Faz poucos minutos, mas faz 10 anos.

Minutos antes, eu tinha 20 anos de idade e trabalhava à noite. Estava nervoso. Não comprava mais discos do Deep Purple desde a saída de Blackmore, mas eles foram tocar em Porto Alegre. Um colega do jornal foi cobrir o show e mandava avisar que músicas eles haviam tocado. Eu espiava sobre o ombro da editora de Variedades. Corrigi: não é "Black In Night", é "Black Night". Ela pergunta como eu sei, digo que tenho todos os vinis da banda. "Por que tu não tá lá?", ela pergunta. "Não tinha grana, e tinha que trabalhat", respondo. Ela me dá seu próprio ingresso de cortesia - número 0002 - e dinheiro para o táxi. Quando chego ao Opinião, quem faz solo? Jon Lord.

Lembro como se tivesse sido esta noite, mas foi há 15 anos.

Eu fecho meus olhos só por um momento e aquele momento se foi, já cantava o Kansas. Tudo o que somos é poeira no vento.

Quando eu assistia ao Concerto, hoje, eu pensava: não, Jon pode ter morrido, mas sua obra está aí. Na hora em que eu quiser, aperto um botão no controle remoto e estou de volta ao dia 23 de setembro de 1999, no Royal Albert Hall. Ou ao dia 7 de maio de 2009, dez anos depois, na galeria Olido, onde eu tenho três anos a menos de idade e Jon me diz pra cuidar e não bater com o microfone em seu nariz. Viajo no tempo e no espaço, como se tivesse um Delorean.



Sua obra está aí. Seu corpo podia ser frágil, como são todos os nossos corpos. Ele sofria com o câncer, como todos nós corremos o risco de sofrer caso vivamos o suficiente. Devia ser muito dolorido. Ele livrou-se desse sofrimento, e eu não me conformava até me dar conta do egoísmo dessa ideia.

Domingo, tive a sorte de conversar com meu amigo Paulinho Oliveira. Um dos homens mais sábios que conheço, sempre acabamos conversando sobre a vida, o universo e tudo mais. Sempre.

Ele me disse ter lido em Eduardo Galeano ou José Saramago que existem dois tipos de morto: o morto apenas e o morto bem morto. Morto bem morto é aquele que se foi e aos poucos se foram também todos aqueles que lembravam dele. Morto é aquele que, embora nos falte, deixa sua memória entre os que sobrevivem a ele, dos que lembram dele ou de sua obra. Jon Lord é desse tipo - eu vou morrer um dia e a obra de Jon Lord ainda estará por aí para ser lembrada.

Até ontem, a privilegiada cabeça de Jon Lord ainda podia nos trazer novos concertos, novas peças, novas ideias. Vai ser doloroso viver sabendo que não virá nada novo dele. E é cada vez mais presente a ideia de que meus outros heróis de carne e osso também não são como o Batman. Porque essa ideia me lembra que eu também não sou como o Batman, e é isso que me apavora.



Mas sua obra está aí. O 21 de agosto de 1970 está vivo na minha tela. Assim como o 24 de setembro de 1969 e o de 1999. Assim como o 7 de maio de 2009. E todas as outras datas em que os dedos mágicos de Jon Lord foram registrados e permanecem vivos. E é esse Delorean de imagens e música que nos mantém pra sempre cientes de que ninguém morre para sempre se deixar o que de melhor tiver na forma de uma obra.

E aí vem outro problema: qual é a SUA obra?

Eu ainda estou tentando descobrir qual é a minha. Leitores generosos podem dizer que este blog é uma obra. Mas blogs se apagam e somem no éter. Tudo o que eu escrevi em jornais já embrulhou peixe. Eu sei a minha obra, mas se eu um dia vier a faltar, ninguém mais sabe.

Qual é a sua obra? Qual é a minha obra? De que lembrarão sobre nós quando, tal como Jon Lord, repetirmos o triste costume de morrer?

Não sei. Mas não é tarde para saber. E a vida de gênios como Jon Lord nos lembra da importância disso.

Muito obrigado, Jon. Por tudo.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Morreu Jon Lord

Não tenho cabeça pra escrever um grande obituário agora aqui no blog.

Mas estou mal.

Fiquem com a entrevista que eu fiz com ele para a MTV, em 2009.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Um cartaz histórico

Um benfeitor da humanidade postou no Facebook a foto deste cartaz, que anuncia o show da banda "Roundabout (Artwoods + Flowerpot Men)", em 20 de abril de 1968, na cidade de Tastrup, na Dinamarca.


É um registro histórico da arqueologia do Deep Purple.

O preço nominal do ingresso, hoje, não compra sequer um café por lá.

O lugar é aqui:


E a banda por aqueles dias gravou isto num estacionamento de Copenhague:

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Gillan: disco novo será gravado em Nashville a partir de 23 de junho


Meu colega Marco Jayme catou esta entrevista do Gillan à Classic Rock. O foco principal é o Who Cares, que saiu no ano passado. Mas o cantor fala bastante do futuro do Deep Purple. O novo disco, pelo que Gillan diz, será gravado em Nashville, no final de junho. Ainda não tem data pra sair o disco novo.


Gillan elogia a produção de Bananas ("Bananas foi um disco de som fantástico... O primeiro disco de Bradford conosco foi brilhante") e critica a produção de Rapture of the Deep ("...em contraste completo com Rapture of the Deep"). A foto acima, aliás, é da produção de Bananas. Gillan também fala sobre as expectativas em relação ao produtor Bob Ezrin, ainda que o contrato não tenha sido assinado.

"Ele veio até nós pra conversar sobre o assunto e todo mundo se apaixonou por ele. Acho que a ideia de trabalhar com alguém que respeitamos profissionalmente e pessoalmente... vai ser mais fácil. Pra ser honesto, acho que o que estamos procurando é uma daquelas abordagens de profissional antigo, onde você tem uma direção e um grande som. É isso que queremos. Cortar o lixo, que a gente só nota tarde demais. Precisamos de um ouvido objetivo, acho que isso é muito importante."

To close, we simply must talk about Deep Purple. It’s true that Bob Ezrin is producing your new album?
It looks that way. I’m not sure I’m allowed to say anything until contracts are signed but it seems… let’s put it this way, I’m booking a flight out to Nashville on June 23. So I’m sure he will be [producing], yes.
June 23 is when you’re going to kick off the recording?
The whole thing, the writing and everything, yes. We’ve got six weeks to do it.
Bob Ezrin is an interesting choice…
I think it’s great to work with different producers and Bob Ezrin has got an amazing track record. No pun intended. He came up to see us to talk it through and everyone fell in love with him. I think the idea of working with somebody you’ve got respect for professionally and personally… it’s going to make it easy. To be honest, what I think we’re looking for is one of those old-pro type approaches where you have guidance and a great sound. That’s what we want. To cut out the rubbish, which we always recognise too late. We need an objective ear, I think that’s really important. I’m looking forward to it very much.
If you look at the history of Purple, you’ve self-produced more often than not.
Generally, yes. We’ve used Martin Birch as a kind of engineer and sixth ear… a sixth pair of ears, I should say. But generally self-produced. This time I think we’re a little more focused than we have been in the past. We never make plans; we just turn up with nothing and crack on from there. But I think Bob Ezrin will help us focus. I thought Bananas [2003, produced by Michael Bradford] was a fantastic-sounding record… in complete contrast to Rapture Of The Deep [2005, also produced by Bradford]. Bradford’s first album with us was brilliant. We’re all a bit long in the tooth and as life goes on you do need someone to give you that cutting edge, which I’m sure Bob Ezrin will provide.
When will new album be released?
Well, I don’t know. There used to be a long lapse between finishing the recording, then the post-production, the artwork and everything… it used to take ages. It’s much quicker these days. I’ve done three or four albums since the last Purple album. Once the music’s sorted, the rest of it takes no time at all. So, when’s it coming out? I don’t know. How do you sell records these days anyway?