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domingo, 9 de novembro de 2008

O último chilique final

Se você é um viúvo da Mk2, passe sua melhor camisa preta neste domingo e guarde luto. Há 15 anos, neste mesmo dia, ficou cristalinamente claro que seria inviável Ritchie Blackmore continuar na banda. Pouco mais de uma semana depois, ele saiu, embora já tivesse pedido demissão em 30 de outubro. (Aguarde o post do dia 17 para mais detalhes.)

A noite de 9 de novembro de 1993 - registrada originalmente no CD e no DVD "Come Hell or High Water" - foi aquela em que a fricção entre Gillan e Blackmore fez surgir o fogo. Ou a água, se preferirem. Blackmore entrou no palco na metade de Highway Star e sumiu no começo de Black Night. Jogou água no câmera. O homem estava com a macaca.

Nos últimos cinco anos, este blog juntou todas as versões que encontrou a respeito daquela noite fatídica. Em setembro, cheguei a conversar, em Copenhagen, com o megafã Rasmus Heide, autor de uma completa e empolgante, porém triste resenha feita para o The Highway Star. Ele estava lá naquela noite. E foi ele quem viu a cena que eu li pela primeira vez quando foi escrita pelo Gillan em sua autobiografia:

    When Blackmore finally did appear, it was only to leave the venue. He was disguised in his roadie's medieval peasant's outfit (which has since formed the basis of his dress code with Blackmore's Night!) and his girlfriend lead him to the door by way of a dog collar and leash. Very strange.

No ano passado, traduzi neste blog três versões sobre o caso da água. Uma era da autobiografia de Ian Gillan; outra, do website de Candice Night (possivelmente a moça que puxava Blackmore pela coleira); a terceira, do Darker Than Blue, fanzine da DPAS.

Eu tenho o vídeo (em VHS) e o CD daquela noite. Está longe de ser minha performance favorita do Deep Purple. O DVD é editado com entrevistas em que os quatro remanescentes falam mal do Blackmore - algo como a mais comentada do que vista edição do debate do Lula com o Collor em 1989.

A EMI tentou relançar o CD com o show completo, mas em fevereiro do ano passado o Ian Gillan chiou a respeito. Disse ele à BBC:

    "Foi um dos pontos mais baixos da minha vida. De todas as nossas vidas, aliás. De fato, aquela formação só durou cinco ou seis shows depois daquele de Birmingham. Aí, o Ritchie saiu da banda. Desde então, temos 13 anos de estabilidade."

O protesto do Gillan fez efeito. Hoje, você não encontra o DVD de "Come Hell or High Water", novo, por menos de R$ 60 nas principais lojas especializadas. O CD desapareceu feito fumaça. E o CD com o show completo, só em ponta de estoque. No site da Livraria Cultura, custa R$ 90.

Desde a primeira vez em que vi o show, apenas uma parte dele me abre um largo sorriso. Não é nenhuma música do próprio Deep Purple, e sim dos Rolling Stones: "Paint it Black". Eles tocavam isso no início dos anos 70 para o Paice fazer um longo solo de bateria e os outros descansarem um pouco ou talvez irem pra baixo do piano com alguma fã mais empolgada. Em 1993, a música virou uma vitrine dos talentos de cada um dos mestres.

Blackmore esmerilha sua guitarra. Lord põe seus dedos pra dançar sobre o teclado de seu brinquedo favorito. Gillan sorri enquanto surra as congas. Glover, sempre discreto, toca as mesmas duas notas que tocava aos 25 anos pra garantir uma base firme pra piração dos amigos. E Paice bota pra trabalhar os pigmeus percussionistas que traz escondidos sob sua manga. Vá lá que o Blackmore desapareça durante a maior parte do tempo, quando devia trocar solos com o Lord, e volte só no final. Mas aí todos eles estão completamente à vontade fazendo o que sabem fazer melhor.

É esse o Deep Purple para o qual eu tiro o chapéu desde a adolescência:

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Nem só de más memórias viveu aquela noite

O show no Birmingham NEC teve um grande ponto alto. Não era uma música exatamente do Deep Purple, e sim dos Rolling Stones: Paint it Black. Em 1970, eles costumavam tocá-la para dar desculpa a um solo de bateria. Em 1993, fizeram uma gloriosa jam como nos bons velhos tempos da verdadeira Mk2 da era de prata que um dia foram.

Blackmore esmerilhando a guitarra. Lord completamente à vontade com seu brinquedo favorito. Gillan sorrindo nas congas. Glover tocando as mesmas duas notas que tocava aos 25 anos pra segurar a piração dos amigos. E Paice colocando os pigmeus pra trabalhar.

Tudo bem, o Blackmore desaparece durante a maior parte do tempo, quando devia trocar solos com o Lord, e volta só no final. Repare no gesto final do Gillan, apresentando o Blackmore como quem diz "senhoras e senhores, EIS O HOMEM!"

Não foi uma noite perfeita. Mas é essa a melhor lembrança que eu tenho da segunda reunião.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Quatro versões

Para entender um fato, é preciso ter acesso ao máximo possível de versões sobre ele. Cada um reage de acordo com o que viu e o que sentiu no calor do momento. Não é inteligente tomar partido acriticamente. Eu, pessoalmente, não dou razão a ninguém - só acho o caso lamentável. Assim, vamos juntar aqui tudo o que se sabe e se falou sobre o caso da água.

Primeiro, o vídeo:



Depois, a versão do palco. Traduzido da biografia de Ian Gillan:

    O grande show ocorreu no NEC, em Birmingham, em 9 de novembro. Ritchie, a essa altura, tinha destruído seu visto, dizendo que ele não iria conosco ao Japão no final do mês, mas ninguém poderia prever o que ocorreria em Birmingham. As coisas andavam ruins entre nós e, em Manchester, nossos roadies tentaram se certificar de que chegaríamos ao palco sem tomar o mesmo caminho. Ainda assim, o show foi legal, assim como o de Brixton, particularmente o segundo, onde Ritchie foi ótimo, e eu encontrei alguns velhos amigos depois, incluindo Dean Howard.

    Mas em Birmingham, estava tudo chegando ao fim. As histórias variam sobre o que exatamente aconteceu, dependendo de sua localização: palco, platéia ou coxias. O que havia sido combinado (e todos concordaram) era que o show seria filmado. (...) A atmosfera nos bastidores era vil, e Ritchie havia se trancado em seu quarto, com uma placa dizendo "O Antro do Texugo". Ele topou a idéia dascâmeras, e assim, não surpreendentemente, havia pilhas de caras caminhando por aí - pra todo lado que você olhasse havia alguém com uma câmera.

    Bom, do meu ponto de vista, os dias em que um artista pode exigir o palco só pra si já foram pela janela há muitos anos. Todo aquele negócio precioso do comportamento - quer dizer, sempre tem alguém por perto, e você tem que aprender a viver com isso. Não existe motivo pra deixar algo assim, algo aliás com que você concordou, estragar sua performance. Mas o Ritchie deixou!

    Assim, as luzes se apagaram, Ian Paice abriu o caminho, Jon e Roger começaram a tocar Highway Star e eu entrei.

    Estava eu no microfone, e percebi que algo não estava certo. Jon estava segurando a onda, e quando eu virei pro lado vi que o Ritchie não estava conosco! Quer dizer, quando um quinto da banda não está lá, o som fica meio ruim, particularmente quando se trata da abertura do show! Então era hora de decidir - ou parávamos o show, ou encarávamos a parada, que foi o que eu fiz. Chegamos ao solo e o guitarrista apareceu, tocou um pouco e sumiu.

    Soube que um jato d'água voou ao meu lado logo atrás das congas, e entramos em Black Night do mesmo jeito - sem guitarrista.

    Nos bastidores, parece que o Ritchie se enfezou com um câmera, e jogou um balde d'água nele. Então, ele achou outro balde e foi atrás de outro cara que estava filmando tudo. Só que o câmera não estava onde o Ritchie achava que estaria, e por isso ele acabou acertando minha senhora, e uma coisa levou a outra.

    Então, eu estava no palco cantando e pensando, "o que será que está rolando lá atrás?", e finalmente larguei o microfone e saí, só pra ver a B em lágrimas. Tendo chegado a algum tipo de compreensão da situação, eu disse: "Eu vou matar esse cara agora - provavelmente com uma bala muito lenta, chamada meu braço direito!"

    A reação da B foi, digamos, brilhantemente compenetrada. Ela disse: "não deixe isso te afetar. Acalme-se e faça um grande show!" E ela disse isso muitas vezes. Na verdade, ela estava me avisando com tanta força que até estava me ameaçando - abençoada seja ela!

    Logo eu estava de volta ao palco com a banda, e o show continuou, com o guitarrista tocando de qualquer jeito, terminando antes, deixando trechos de lado e geralmente me deixando perdido sempre que possível. No final, o Ian Paice jogou couros de bateria autografados para a platéia estupefata e gritou: "devemos pra caralho a vocês!".

    Não consigo sequer começar a explicar o que o Ritchie tinha em mente naquela noite, se ele estava consciente do que estava rolando ou se estava apenas hiperfodido mentalmente e supertenso, como só ele consegue. Será que a visão de algumas pessoas o chatearam tanto assim ou foi premeditado, por suas próprias e inexplicáveis razões? Eu soube (pelo Darker Than Blue) que em torno da meia-noite o Antro do Texugo abriu e ele foi visto sendo carregado por uma garota carregando uma corrente, com uma coleira em torno do pescoço dele! Ele estava vestido com seu longo e negro casaco de couro, e usava a máscara de bruxa que às vezes era usada pelo assistente de palco, mais um chapéu de bruxa! Se for verdade, é triste.


Agora, ao lado do palco. Candice Night, que estava lá no dia do incidente (e provavelmente carregou Blackmore pela coleira), conta seu lado da história:

    Eu estava lá no dia do incidente, e a verdade é que ele jogou a água no câmera. Por três vezes ele pediu ao câmera que saísse do palco pra não ficar na frente do Ritchie. Se você tivesse pago pra ver o Ritchie tocar e só pudesse ver as costas da cabeça de um câmera a noite inteira, não ficaria chateado? Por isso, pediram pro câmera sair. Mas ele não saiu. Então, o que você viu foi o temperamento do Ritchie, mas não pelos motivos que você imagina... sempre existe um método na loucura.


Da platéia, vem a versão do Darker Than Blue, a publicação da Deep Purple Appreciation Society. Richard Whitehead (só pode ser sacanagem):

    Estávamos sentados do lado dele do palco, e vimos mais do que a maioria. Ele apareceu logo depois de os outros já estarem no palco, caminhou até onde o ajudante dele estava esperando atrás dos amplificadores, depois voltou correndo pro vestiário sem tocar nada. Quando ele reapareceu, depois de três quartos de Highway Star, caminhou pro lado do Lordy e atirou o conteúdo de uma vasilha plástica de bebida contra alguém que estava ao lado do palco. No final da música, ele voltou pra trás do amplificador, largou a guitarra e correu pra trás do Paicey, pra área dos bastidores, onde ele atacou alguém e jogou mais água. Tirando isso, o show foi bem curtível, embora o Gillan e o Blackmore não olhassem pra cara um do outro.

Não compre nosso disco, diz Gillan

A BBC está cobrindo hoje um fato inédito na história da música: um artista - Ian Gillan - que recomenda aos fãs que não comprem um disco seu.

Não é qualquer disco: é o mais famoso show da turnê de The Battle Rages On, em 1993 – a versão integral do show editado em Come Hell or High Water. Só tem importado e custa US$ 19 na Amazon.

    "Foi um dos pontos mais baixos da minha vida. De todas as nossas vidas, aliás. De fato, aquela formação só durou cinco ou seis shows depois daquele de Birmingham. Aí, o Ritchie saiu da banda. Desde então, temos 13 anos de estabilidade."

O vocalista chamou a BMG de oportunista pelo lançamento. A gravadora, que não sabia que o Gillan não sabia, tampouco que ele discordava do lançamento, prometeu tirar o disco das lojas. Ou seja: quem comprou, comprou. Quem não comprou, que corra.

A história do show é conhecida por boa parte dos fãs. A Mk2 do Deep Purple havia acabado de voltar pela segunda vez, para um disco e uma turnê comemorando os 25 anos da banda. Blackmore e Gillan mal se falavam. Esse show no NEC, em 9 de novembro, seria gravado, mas Blackmore rodou a baiana com um câmera pelo segundo vídeo de sua vida. Entrou no palco só na metade de Highway Star e jogou um copo d'água no câmera. Consta que teria atingido a mulher do Gillan e deixou o cantor puto. Em sua autobiografia, Gillan conta o caso.

Embora o Deep Purple pudesse impedir a circulação dessas imagens deprimentes logo de cara, não foi o que houve. Menos de um ano após o show, eles lançaram o vídeo "Come Hell or High Water", cuja edição intercala as músicas do show com entrevistas dos quatro membros remanescentes da Mk2 contando causos da banda e descendo a lenha no polêmico guitarrista - que havia deixado a banda algumas semanas depois da gravação.

Gillan tem alguma razão em não gostar desse show. Mas todo mundo já o conhecia. É uma peça de colecionador. Ele ganha tostões com a venda.

A imprensa inglesa deitou e rolou: "Deep Purple faz promoção em estilo bizarro"; ”Deep Purple: Não Comprem Nosso Disco, Por Favor”.

A Deep Purple Appreciation Society não deixou por menos:

    “Foi mesmo o pior show deles? Conte a nós se você discorda e por quê. Nossas glamorosas assistentes estão esperando seu telefonema, e a melhor resposta receberá uma cópia da terrível coletânea Purplexed (duas cópias para a concorrente).”

Tudo isso uma semana depois de uma gloriosa entrevista dada por Gillan e Paice ao The Sun. A melhor entrevista que já vi membros do Deep Purple darem.

Todos podíamos passar sem essa.

Veja a cobertura toda no Google News.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Plastic Night Band ou Blackmore's Ono

OK, essa vai ser longa. Eu, se fosse vocês, imprimia. Mas não deixem de comentar.

Pense em um grande artista que se apaixona perdidamente por uma mulher e passa a criar apenas junto com ela, brigando muito mais feio do que o normal com os colegas com os quais mudou sua arte e ainda por cima passando a se comportar diferente. O caso clássico é o de John Lennon e Yoko Ono. Mas pode descrever a recente relação de Hermeto Paschoal com Aline Morena. E pode descrever, certamente, o caso de Blackmore com a sua patroa, vulgo Blackmore's Night.

Blackmore e Gillan, guardadas as proporções, foram Lennon e McCartney no Deep Purple. A Candice não estava lá nas primeiras brigas, mas a Yoko também não. E ambas estavam junto na época do conflito final. Duas mulheres de idéias exóticas, especialmente sobre arte. Se Blackmore e Lennon já tinham alguma tendência temperamental, a parceria com as respectivas só adensou a redoma em torno deles.

Eu nunca tinha pensado nessa história nesses termos até ler a nota do Blackmore sobre Montreux. Eu sabia que ele recusaria, mas foi preciso ler a nota pra cair a ficha. Até ontem, eu interpretava Blackmore's Night como um ato de cavalheirismo do Blackmore - que, coitado, já era meio bolado e não andaria batendo muito bem das idéias. Mas eu achava bonito o fato de um grande artista como ele sair dos holofotes para dar passagem à patroa. Românticos. Estamos em falta no mundo.

Nas últimas duas semanas, alguns fatos surgiram, reforçando a hipótese Yoko Ono. Tem o caso do jornalista sueco, em que a empresária e sogra do Blackmore fez questão de ter um chilique mais explosivo do que aquele que o Blackmore teve no California Jam. Outro dia, fuçando o site de Blackmore's Night, li uma declaração da Candice sobre o episódio do copo d'água do vídeo Come Hell or High Water. Sim, ela estava lá como backing vocal. Sempre achei que fossem maledicências as declarações do Gillan sobre o fato de o Blackmore ter saído do camarim naquela noite puxado pela namorada por uma coleira.

Yoko Ono. Santa ou demônia? Libertadora ou escravizante? Até hoje, não sei direito o que pensar dela. Por conseqüência, não sei direito o que pensar do Blackmore com a patroa. Já disseram que esse tipo de interpretação sobre síndrome de Yoko Ono é bem machista. Faz algum sentido.

Com a pulga atrás da orelha, fiz questão de reler as declarações que o Lennon deu à Playboy na entrevista publicada pouco depois de ele morrer. Nunca li um Lennon tão maduro. Acho que o Blackmore concordaria, se não estivesse tão preocupado em falar com duendes e coisas do gênero.

Obviamente, curto mais os Beatles do que a Plastic Ono Band, mais o Deep Purple do que Blackmore's Night. Acho que faz sentido curtir o Blackmore no Purple apenas por aquilo que está gravado e em que eu sempre descubro coisas novas.

Acho chato que ele esteja incomunicável com os ex-colegas, acho que ele está esquisitão (Lennon também esteve), acho foda esse negócio da sogra. Mas é inegável que Blackmore aparenta estar muito mais feliz hoje do que em qualquer ponto de 13 anos para trás. O artista se escondeu sob um rabo de saia, mas o homem ficou feliz.

Deixemos o Blackmore em paz com seu passado, seu presente e seu futuro. Afinal, depois que chega ao topo, um homem não tem esse direito adquirido?



Para ler e pensar, reproduzo abaixo alguns trechos da famosa entrevista à Playboy.

PLAYBOY: Por que você virou um homem caseiro?

LENNON:
Houve muitas razões. Eu cumpri obrigações e contratos desde que eu tinha 22 anos e até bem depois de fazer 30. Depois de tantos anos, era tudo o que eu conhecia. Eu não era livre. Eu estava preso numa caixa. Meu contrato era a manifestação física de estar na prisão. Era mais importante encarar a mim mesmo e encarar essa realidade do que continuar uma vida de roquenrol - e ficar oscilando conforme sua própria performance ou a opinião do público sobre você. O roquenrol não tinha mais graça. Decidi não aceitar as opções-padrão do meu negócio - ir pra Las Vegas cantar seus grandes sucessos, se tiver sorte, ou ir pro inferno, que é pra onde Elvis foi.

ONO: O John era como um artista que é muito bom em desenhar círculos. Ele se prende a isso e acaba virando sua etiqueta. Ele tem uma galeria pra promover isso. E, no ano seguinte, ele inventa de fazer triângulos, sei lá. Não reflete a vida dele. Quando você continua fazendo a mesma coisa por dez anos, ganha um prêmio por ter feito isso.

LENNON: Ganha o grande prêmio quando pega câncer e passou dez anos desenhando círculos e triângulos. Eu tinha me tornado um artesão, e podia ter continuado sendo um artesão. Eu respeito os artesãos, mas não estou interessado em virar um.

ONO: Só pra provar que consegue deixar as coisas de lado.

PLAYBOY: Vocês estão falando de discos, claro.

LENNON:
É, ficar lançando só porque esperam isso de mim, como tanta gente que faz um disco a cada seis meses porque é o que se espera.

PLAYBOY: Está falando de Paul McCartney?

LENNON:
Não só o Paul. Mas eu tinha perdido a liberdade inicial do artista ao me tornar escravo da imagem do que o artista deve fazer. Muitos artistas se matam por causa disso, seja pela bebida, como o Dylan Thomas, ou por doideira, como o Van Gogh, ou do coração, como o Gauguin.

PLAYBOY: A maior parte das pessoas teria continuado a produzir. Como você conseguiu ver uma saída?

LENNON:
A maior parte das pessoas não vive com Yoko Ono.

PLAYBOY: Ou seja...?

LENNON:
A maior parte das pessoas não tem uma companheira que diga a verdade e que se recuse a viver com um artista de merda, algo que eu sei ser muito bem. Eu sei encher de besteira a mim mesmo e a todo mundo em volta.
YOKO: É a minha resposta.

PLAYBOY: O que ela fez por você?

LENNON:
Ela me mostrou a possibilidade da alternativa. "Não precisa fazer isso". "Não preciso? Mas... mas... mas..." Claro, não foi tão simples e nem rolou da noite pro dia. Precisou de reforço constante. Cair fora é muito mais difícil que seguir em frente. Eu já fiz as duas coisas. Por encomenda e no prazo, eu entreguei discos de 1962 a 1975. Cair fora parece aquilo que os caras fazem aos 65 anos, quando de repente não era pra eles existirem mais e são mandados pra fora do escritório [bate na mesa três vezes]: "Sua vida acabou. Vá jogar golfe."

(...)

PLAYBOY: Por que dizem tanto que a Yoko manda em você?

LENNON:
Eles se apegam a uma coisa que nunca nem sequer existiu. Qualquer um que diga ter algum interesse em mim como um artista individual ou mesmo como parte dos Beatles simplesmente entendeu mal qualquer coisa que eu já disse se não entendem por que estou com a Yoko. E, se não conseguem ver isso, não conseguem ver nada. Estão todos batendo punheta pra... sei lá, podia ser qualquer um. Mick Jagger ou algum outro. Deixa eles baterem punheta pro Mick Jagger, tá bom? Eu não preciso.

PLAYBOY: Ele adoraria.

LENNON:
Eu simplesmente não preciso disso. Deixa eles irem atrás dos Wings. Esqueçam de mim. Se é isso que querem, vão atrás do Paul ou do Mick. Não estou aí pra isso. Se isso não está claro pelo meu passado, estou dizendo em preto e verde, do lado dos peitos e bundas da página 196 da Playboy. Vão brincar com os outros meninos. Não me encham o saco. Vão brincar com os Rolling Wings.

PLAYBOY: Você já----

LENNON:
Não, peraí um minuto. Vamos continuar por um segundo; às vezes eu não consigo me livrar disso. [Ele está de pé, escalando a geladeira.] Ninguém nunca disse nada sobre o Paul ter me enfeitiçado ou sobre eu ter enfeitiçado o Paul! Ninguém achou que era anormal naquele tempo, dois caras juntos, ou quatro caras juntos! Ninguém disse, "Pô, como é que esses caras não se separam? Tipo, o que será que rola nos camarins? Que papo é esse de Paul e John? Como é que eles ficam tanto tempo juntos?" Passamos mais tempo juntos lá no começo do que John e Yoko; nós quatro, dormindo no mesmo quarto, praticamente na mesma cama, no mesmo caminhão, vivendo juntos noite e dia, comendo, cagando e mijando juntos! Tá bom? Fazendo tudo juntos! E ninguém falava porra nenhuma sobre estarmos enfeitiçados. Talvez dissessem que estávamos enfeitiçados pelo Brian Epstein ou pelo George Martin [primeiro empresário e produtor dos Beatles, respectivamente]. Sempre tem alguém que deve ter feito alguma coisa pra você. Sabe, eles andam parabenizando os Stones por estarem juntos há 112 anos. Uêêêêêpa! Pelo menos o Charlie e o Bill ainda têm suas familias. Nos anos 80, eles vão estar perguntando: "Por que esses caras ainda andam juntos? Não podem se virar sozinhos? Por que eles precisam andar com uma gangue? É o liderzinho que tem medo que alguém possa esfaqueá-lo pelas costas" Essa vai ser a questão. Essa aí é que vai ser a questão! Eles vão olhar pros Beatles e pros Stones e todos esses caras serão relíquias. Os dias em que essas bandas eram feitas só de marmanjos estarão nas fitas de notícias, sabe. Vão mostrar fotos do cara de batom rebolando a bunda e os quatro carinhas com a maquiagem preta nos olhos tentando parecer sacanas. Isso é que vai ser piada no futuro, e não um casal cantando junto, ou vivendo e trabalhando junto. Tudo bem quando você tem 16, 17 ou 18 anos, ter companheiros e ídolos, OK? É tribal, é turma, tudo bem. Mas quando isso continua e você ainda está fazendo a mesma coisa aos 40 anos, quer dizer que ainda tem cabeça de 16.

(...)

PLAYBOY: Você fica dizendo que não quer voltar dez anos atrás, que muita coisa mudou. Você não sente que seria interessante - não precisa ser cósmico, só interessante - se reunir, com tantas experiências novas, e cruzar seus talentos?

LENNON:
Não seria interessante levar o Elvis de volta à fase da Sun Records? Sei lá. Mas fico feliz em ouvir o que ele gravou naquela época. Não quero arrancá-lo do caixão. Os Beatles não existem e nunca existirão de novo. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Richard Starkey podem até fazer um show -- mas nunca mais serão os Beatles cantando "Strawberry Fields" ou "I am the Walrus" de novo, porque não temos mais vinte e poucos anos. Não podemos ser assim de novo, nem as pessoas que estão ouvindo.

PLAYBOY: Mas não é você que está dando muita importância a tudo? E se fosse só uma diversão nostálgica, tipo reunião da turma do segundo grau?

LENNON:
Nunca fui a essas reuniões. Meu negócio é: fora da vista, fora da cabeça. É essa a minha atitude em relação à vida. Então, não tenho nenhum romantismo quanto a nenhuma parte do meu passado. Penso nisso só até o ponto em que isso me deu prazer ou me ajudou a crescer psicologicamente. É essa a única coisa que me interessa no passado. Aliás, eu não acredito no ontem ("I don't believe in yesterday"). Sabe, eu não acredito no ontem. Só me interessa o que eu faço agora.

sábado, 31 de janeiro de 2004

Heavy Metal Pioneers

Estava revendo hoje o vídeo Heavy Metal Pioneers, o primeiro que assisti do Deep Purple, ainda na época em que foi lançado (92). Incrível como o tempo dá perspectiva às coisas. Primeiro: eu achava na época que entendia o que tinha ouvido. Estava errado. Me surpreendi com o quanto eu ouvi de "novidade". Segundo: embora a primeira metade tenha me trazido boas lembranças, o pedaço que conta da reunião do Purple até a entrada do Joe Lynn Turner engasgou.

Esse vídeo tem grandes semelhanças com o "Come Hell or High Water", apesar da óbvia diferença de um ser um show e outro ser um documentário. Ambos são feitos com a intenção de jogar uma pá de cal sobre o mais recente saído do grupo.

Em HMP, o Judas a ser malhado é o Ian Gillan. O trecho com ele cantando Perfect Strangers parece ter sido escolhido a dedo: rouco, esquecendo as letras, inventando partes, saltando trechos, o Blackmore fazendo caretas e gesticulando. Já em CHOHW, a "vítima" é o Blackmore. O show escolhido é exatamente aquele em que o homem de preto se embromou pra subir ao palco (chegou só na metade da primeira estrofe de Highway Star), jogou água no câmera e acertou a mulher do Gillan, etc. Nas entrevistas, os ex-colegas do cara lembram seus momentos de maluquice e dizem que Blackmore "vive em um mundo particular".

São vídeos importantes, muito embora a política interna do grupo influa muito em ambos. Some à equação o California Jam (acho a MK3 áspera demais ao vivo, e o espetáculo do palco em chamas é deprimente, embora poderoso) e o melhor DVD do Purple disponível em todos os tempos é Classic Albums: Machine Head. Melhor até mesmo que o genial Black Night in Denmark (vulgo Machine Head Live 72) e que os VHS Rises Over Japan (pobre Bolin) e o sensacional Doing Their Thing.

Ainda não vi Bombay Calling e nem o da turnê de Abandon na Austrália. Mas parece que, desde a chegada do Steve Morse, as coisas mudaram muito lá dentro. Um indicador positivo disso parece ser a ausência de vídeos pra "vingar" a saída do Jon Lord.

domingo, 9 de novembro de 2003

Haja o inferno ou altas águas



Há dez anos, neste mesmo dia, Ritchie Blackmore fazia seu antepenúltimo show no Deep Purple. Era quase o fim da curta existência da terceira encarnação da Mk2. O show ocorreu no NEC Birmingham, na Inglaterra, e está registrado no vídeo "Come Hell or High Water". O CD também tem grandes pedaços desse show, embora também traga material de um show de 16 de outubro na Alemanha.

Sempre achei esse disco meio deprimente, porque eles parecem meio tristões, burocráticos. O Blackmore, especialmente. Aí eu comprei o vídeo, e o Blackmore realmente me decepcionou. Além da cara amarrada, ele aprontou coisas como chegar ao palco dois versos depois do começo de Highway Star e atirar um copo d'água no câmera (depois soube que também acertou a mulher do Ian, vejam só).

Claro que tem momentos grandiosos, como o Blackmore e o Lord puxando malandramente o riff de Burn no meio de Speed King (no CD), uma apocalíptica interpretação de "Paint it Black", dos Rolling Stones (no vídeo) e o Jon Lord imitando som de sirene de bombeiros quando Gillan canta os versos "they burned down the gambling house/it died with an awful sound" em "Smoke on the Water".

O vídeo intercala entre as músicas trechos de entrevistas com os quatro membros então remanescentes do Purple – eles ainda não sabiam se iam continuar na estrada –, todos eles pessimistas e lembrando episódios malas do Blackmore. O homedepreto tinha um camarote só pra ele (onde passava o tempo com sua namorada, possivelmente Candice Night), enquanto os outros quatro relembravam os velhos tempos compartilhando um camarim. Na noite de 2 de novembro, Blackmore e Gillan quase foram às vias de fato.

Em sua defesa, o homem de preto reclamava que o cantor esquecia versos inteiros e detonava sua voz tomando cerveja. Ele também não curtia a coisa de os câmeras ficarem passando pelo palco. Sim, o cara é um puta guitarrista mas é temperamental.

No dia 30 de outubro, Blackmore havia enviado uma carta aos colegas, por meio do empresário Colin Hart, dizendo que estava de saco cheio e que só iria completar a turnê européia com a banda - que terminaria duas semanas depois, no dia 17 de novembro, em Helsinque, na Finlândia. Depois do show inglês registrado em Come Hell, enquanto os Gillan, Paice e Glover davam entrevistas e o Jon Lord ligava para o Simon Robinson, Blackmore só apareceu pra ir embora. Vestido de pajem medieval e puxado pela coleira por sua namorada (creeedo).

No show, registrado em Come Hell..., Eles tocam várias músicas do disco The Battle Rages On, que já não me empolgava muito na época do lançamento. A turnê também marcou a chegada aos palcos de uma das minhas músicas favoritas do Fireball, "Anyone's Daughter" - pela primeira vez ao vivo desde 1971.

A passagem de Child in Time para Anya me deixou imensamente chateado. Depois de uma performance em que precisou ser ajudado pelos instrumentais para fazer os agudos, no silêncio entre as duas músicas o Ian Gillan dizia a frase "that was then, now is now, and all things return" ("isso foi antes, agora é agora, e tudo volta"). Quando ouvi isso pelas primeiras vezes, achei que ele estava pedindo desculpas. Diz ele que não era.

Come Hell or High Water é bom. É sempre legal ouvir o Blackmore tocando. Mas é essa fase do Purple que me lembra por que eu, particularmente, não faço questão de que o homem de preto volte à banda. Cada vez que passo uma semana ouvindo as delícias dos anos 70 e fico lembrando de como o Blackmore era ducaramba, eu volto a ouvir Slaves & Masters, The Battle Rages On e Come Hell or High Water pra lembrar como o Blackmore já não queria mais nada com o Purple.

Pra saber mais sobre a turnê, vai lá no especial do THS.