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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Um minuto de silêncio: Jim Marshall morreu


Fiquei sabendo agora pela manhã, no Facebook do guitarrista Bernie Torme, que Jim Marshall morreu. Uma lástima. Há uma página no Facebook para postar condolências.

Não existe som mais bonito, no rock, que o de uma Fender Stratocaster amplificada por um Marshall valvulado. Talvez só o de um Hammond amplificado por um Marshall se compare. A graça do Deep Purple desde o início era combinar os dois. Mas não só eles. Boa parte do rock britânico dos anos 60 e 70 deve sua existência e genialidade a Marshall.


Marshall era baterista de uma big band antes de abrir uma loja de instrumentos em Hanwell, no comecinho dos anos 60. Músicos de toda a região do Oeste de Londres se encontravam lá pra bater papo, testar equipamento, comprar fiado e, todo sábado, dar canjas. Mais ou menos como as que costumavam rolar numa das lojas da Teodoro Sampaio. (Entrevistado para uma biografia do Blackmore, Marshall disse que não lembrava das canjas.)

O Oeste de Londres é pertinho da região onde cresceram Ian Gillan, Ritchie Blackmore, Jimmy Page e outros gênios. Heathrow, onde fica o aeroporto internacional, é um pouco adiante - o que significa que esse povo precisava TOCAR ALTO pra ser ouvido. Belo lugar pra surgirem guitarristas, vocalistas e os melhores amplificadores do mundo.

Jim Marshall era amigo de Bert Kirby, professor de música de Nick Simper. Foi na loja dele que Simper comprou sua primeira guitarra - fiado.  Custava 20 libras, e ele parcelou em uma libra por semana. Quando metade das prestações estava quitada, Marshall escreveu no cartão: "PAGO".

Simper não era o único agraciado por essa generosidade. Mais tarde, quando Marshall começou a construir amplificadores, essa generosidade se traduziu em uma clientela leal formada pelos lisos do passado. Parte dela ficou famosa, amplificando a fama de seus equipamentos para o mundo inteiro.


Três momentos cruciais de Marshall com o Deep Purple:
  • Em 1968, quando a primeira formação do Deep Purple estava sendo criada, os empresários bancaram a compra de 7 mil libras em equipamentos na loja de Jim Marshall. Isso incluía o primeiro Hammond próprio de Jon Lord e, claro, os amplificadores.
  • No ano seguinte, os empresários do Deep Purple toparam a ideia excêntrica de Jon Lord de fazer um concerto juntando banda de rock e orquestra. Marcaram uma data no Royal Albert Hall para isso. Além do problema da composição, havia um outro: como fazer para que TODOS fossem ouvidos? A acústica do RAH dava conta da orquestra, mas com a amplificação da banda poderia ser impossível ouvir os instrumentos sinfônicos. Por acaso, Jim Marshall tinha acabado de criar um sistema de mixagem de 600 watts. Ele colocou um anúncio nos jornais ingleses informando que o show seria a "World Premiere" do seu novo sistema. O resultado? Este:

  • Em 1973, quando Blackmore não pôde tocar num show lotado em Amsterdã e a banda deixou o bis de lado, a plateia ficou tão violenta que detonou os amplificadores que estavam no palco.  Para poder fazer o show seguinte em Copenhagen, dali a três dias, eles estariam em apuros se não fosse a agilidade de Marshall para fazer a entrega - com toda a precariedade de comunicações do começo dos anos 70. 
Minhas mais sinceras condolências, portanto.

E, caso algum leitor do Purpendicular ganhe na Mega-Sena um dia, aceito como presente um frigobar assim:

quarta-feira, 11 de julho de 2007

O que Gillan fez com a voz

Há uns três anos, quando alguém diz que o Gillan não tem mais voz porque ele não grita mais, costumo responder que ele mudou o jeito de cantar - que, em vez de tentar imitar depois dos 60 o que fazia aos 20, ele nos últimos anos saboreia mais as palavras, brinca mais com outros recursos da voz como a entonação. Ele nunca tinha falado claramente sobre isso até esta semana, no Q&A de seu site:

"In Rock" foi um catalizador (da minha voz), porque ali foi a primeira vez em que eu me soltei, e depois veio "JC Superstar". Desde então, tem sido toda uma jornada de descoberta. Outro grande momento foi o conselho que eu recebi de Roger Glover há uns cinco ou seis anos. Acho que todos nós deterioramos durante os traumas do começo dos anos 90. Jon Lord, Paicey e Rog se recuperaram bem rápido quando o Stevie entrou pra banda, mas eu nunca me recuperei a ponto de voltar aos altos padrões anteriores até que Rog resolveu o problema. Ele disse que eu devia relaxar, simples assim. Eu sofria em cada nota, o que dava um toque chato à minha voz e limitava severamente o alcance de expressão que eu aproveitava em anos anteriores. Então, eu relaxei, e com a ajuda da meditação e encorajamento do meu querido Roger, tudo voltou.

Houve uma crise semelhante no começo dos anos 80, antes de eu tirar minhas amígdalas. Acho que foi ao me recuperar desses tempos horríveis que eu "descobri" como fui agraciado por ter este instrumento natural, e como eu tenho sorte de ele estar ainda funcionando.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Palhetada

Descobri via The Highway Star o fórum onde Richard Dawk, que trabalhou na parte técnica com Blackmore nos anos 70 e 80, responde a perguntas de leitores.

Há questões bem interessantes, como esta aqui: por que nunca se ouve o clique da palheta de Blackmore contra as cordas nas gravações?

A resposta: a palheta é especial, feita de casca de tartaruga. É contra a lei em vários países ter isso - motivos ecológicos -, mas o som é perfeito.

Pelas maravilhas da internet, você também pode ter uma palheta do Ritchie.

sábado, 13 de maio de 2006

O ataque das guitarras do Purple

Aos 15, 16 anos, meu ídolo absoluto era um certo Richard Hugh Blackmore. Eu estava começando a tocar guitarra, e pra mim nada superava a possibilidade de extrair dos meus dedos um som parecido com o que ele tirava. Acabei desviando de carreira, deixei de aprender a tocar guitarra e hoje em dia só o que eu tenho em casa é um violão fabricado com trabalho escravo na China. O mais barato que achei.

Hoje, passeando pela Teodoro Sampaio, entrei na Matic e brinquei um pouco com uma Fender cor de creme (R$ 3.200) plugada num amplificador Marshall valvulado. Basicamente, brinquei com algumas introduções, como Burn, Mandrake Root, Lay Down Stay Down, Lazy e Strange Kind of Woman. Estou caminhando nas nuvens - pela primeira vez na vida, senti que tocava Deep Purple direito. Ficou igualzinho, pela primeira vez na minha vida, saído diretamente dos meus dedos. Nada substitui essa sensação. Absolutamente nada. Eu me senti realizando o sonho dos meus 15 anos.

Em homenagem a isso, vamos ver em ação cada um dos guitarristas que o Deep Purple já teve em toda sua história. Começando por...

1) O homem de camisa de seda azul, ainda com uma Gibson, tocando Hush no Playboy Late Night Club, em 1968:


Get this video and more at MySpace.com

2) Tommy Bolin, tocando Love Child no Rises Over Japan:


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3) Joe Satriani, com Maybe I'm a Leo, num vídeo pirata:


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4) Steve Morse, com Contact Lost:


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segunda-feira, 1 de maio de 2006

Fazendo o que sabem

Um colega numa das comunidades do Blackmore no Orkut perguntou se ele já havia tocado uma Les Paul. Já fui melhor em reconhecer tipos de guitarra, mas em "Doing Their Thing" (abaixo, o vídeo de Child in Time) ele certamente toca uma Gibson. Em Speed King é uma Fender preta, provavelmente a que ele ganhou do Eric Clapton em 1968 quando o Purple abriu para o Cream nos EUA.



Acho que a guitarra do vídeo aí de baixo, de quando ele tinha 18 anos, é quase certamente uma Les Paul, né?

segunda-feira, 1 de março de 2004

Cinquentona

A Fender Stratocaster, corpo e timbre de guitarra que consagrou o Ritchie Blackmore (notório destruidor de várias delas), completa meio século.

O Estadão lembra alguns de seus principais usuários (como Eric Clapton, que teria dado a primeira strato para o homedepreto) e conta fatos interessantes da história dessa guitarra. Diz, por exemplo, que as melhores guitarras Fender são as anteriores a 1965, quando Leo Fender estava morrendo e vendeu a empresa para o conglomerado CBS.

Nas primeiras gravações do Purple, até o In Rock, Ritchie usa uma Gibson. A partir de então, é tudo na base da stratocaster. É nítida a mudança do timbre. Compare, por exemplo, o som da guitarra no solo de Child in Time com o de Strange Kind of Woman.

"Prefiro a Stratocaster porque ela tem um som mais 'de ataque'. No começo, eu não conseguia me acostumar com a Strat depois da Gibson. Os braços são bem diferentes. Mas agora não consigo mais me acostumar com a Gibson. Uma Stratocaster também é mais difícil de tocar do que uma Gibson. Sei lá por quê. Acho que é porque não dá pra correr tão rápido os dedos pela escala de uma Strat. Com uma Gibson você tende a se perder. É bem fácil zunir de cima a baixo, e você acaba tocando formas físicas ao invés de realmente trabalhar algum som original. (...) Tocar uma Fender é uma arte em si. Elas estão sempre desafinando. Mas, do jeito como eu toco, eu mantenho um bom controle sobre ela."

(Entrevista à Guitar Player em 1973, a mesma em que Blackmore afirma que seu principal efeito na guitarra é o amplificador a todo volume e diz que o melhor jeito de aprender é copiando dos outros; "simplesmente roube", diz ele.)

Por ter acostumado tanto o ouvido, minha guitarra dos sonhos é uma Fender Stratocaster especial, modelo Ritchie Blackmore, existente desde 1993. Vem com o braço escavado (coisa que ele faz com as guitarras desde os 15 anos, pra dar mais sensibilidade ao toque nas cordas e, portanto, mais rapidez) e outras especificações semelhantes às usadas pelo bruxo, como o captador do meio lááááá embaixo ("fica no caminho da palheta", justificou em 1973).

Nas lojas brasileiras, custava mais ou menos o preço de um fusca em bom estado certa vez que comparei.