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sábado, 17 de março de 2012

Billy Cobham tocará no Brasil em junho


O baterista de jazz Billy Cobham - com quem Tommy Bolin gravou o disco que impressionou David Coverdale ao procurar um sucessor para Ritchie Blackmore - vai tocar em junho na décima edição do festival Rio das Ostras Jazz & Blues.

Cobham tem pedigree profissional. Em 1969, fez parte do grupo de Miles Davis que gravou o disco "Bitches Brew".

É o segundo disco mais bem-sucedido do trumpetista, escancarando sua abertura para uma fase em que ele não queria saber de encaixar sua música numa "gaveta" de estilo. Especialmente na gaveta do jazz, que ele já havia sacudido várias vezes nos 20 anos anteriores.

Por essa época, Davis já ouvia Jimi Hendrix, Sly Stone, James Brown. Queria fazer algo mais pra esse lado, sem deixar de lado o maior tesão do jazz - improvisar dentro de uma estrutura mínima, com músicos talentosos se ouvindo e improvisando de volta. Não importava quantos minutos durasse.

Não é muito diferente do que o Deep Purple fazia ao vivo nessa mesma época, em números como "Wring That Neck" e "Mandrake Root". Muita improvisação genial, com um ritmo marcado para segurar enquanto os outros piravam.

Com o guitarrista John McLaughlin, que também participou de "Bitches Brew", Cobham fez uma participação em 1970 na Mahavishnu Orchestra e gravou "Inner Mounting Flame".

Foi em 1973 que Cobham gravou seu primeiro disco solo, "Spectrum". O grande atrativo do disco é a bateria furiosa de Cobham e uma guitarra ácida, distorcida, completamente pirada, tentando acompanhar.

Os dedos que comandavam aquela guitarra eram os de um moleque de 22 anos chamado Tommy Bolin. Deles saíam coisas assim:



"Spectrum" foi o vinil que David Coverdale jogou nas mãos de Jon Lord quando estava insistindo com ele e Ian Paice que procurassem um sucessor para Ritchie Blackmore. "Se esse aí não for bom o bastante, ninguém é", disse Coverdale.

Talvez por influência desse disco, Paice fez uma jam especial com Bolin enquanto ensaiavam o Come Taste the Band. Só os dois. Essa jam saiu no remaster do único disco de estúdio da Mk4. Saca só.



Vou tentar ir a esse festival. Os shows são de graça, o maior trabalho é chegar lá (e talvez achar hospedagem). De certa maneira, devo a Billy Cobham a ampliação dos meus horizontes musicais. Só fui atrás do Miles Davis elétrico depois que registrei a conexão. Hoje em dia, meu hobby musical favorito é explorar as gravações ao vivo dessa fase de Miles Davis.

terça-feira, 21 de junho de 2011

BCC usa vídeos de fãs como estratégia de divulgação



O Black Country Communion, a superbanda do Glenn Hughes, está se promovendo de um jeito especial: pedindo que os fãs filmem a banda nos shows e abrindo um concurso pra esses vídeos. Os fãs postam o vídeo no site da banda e quem tiver mais views pode levar uma graninha modesta, créditos pra comprar no site da banda e uma guitarra Epiphone autografada pelos músicos.

Hughes, arrisco dizer, é um dos músicos que mais entende como funciona a internet. Há cinco anos, quando você entrava num show, ainda era revistado e corria o risco de ter de deixar sua máquina fotográfica na portaria. Depois, quando câmeras de foto e vídeo migraram para os celulares, as casas de espetáculo descobriram que não dava mais para reprimir. Até porque não funciona - taí o YouTube que não me deixa mentir.

Se você não pode evitar que as câmeras entrem, pode torná-las parte do espetáculo. E é isso que o Black Country Communion fez. Estimula neguinho a ir ao show, fazer um baita vídeo e ficar rondando o site da banda. Ficar torcendo pro seu vídeo ser o mais visto. Chamar os amigos pra ver o vídeo no site, o que também não faz mal pra banda.

David Coverdale, numa entrevista recente, fez as contas: a estreia do clipe de "Love Will Set You Free" no YouTube deu mais audiência do que a chegada de qualquer clipe do Whitesnake na MTV nos anos 80. Isso significa o seguinte: o YouTube vai estar lá. Os downloads estarão lá. Você pode queimar neurônios pra incorporar isso à sua estratégia ou pode reclamar da vida.

Hughes e Coverdale resolveram queimar neurônios digitais. Compare isso com declarações recentes, por parte do Steve Morse, de que testar músicas novas no palco expunha o Deep Purple porque no dia seguinte um monte de gente postou no YouTube. Isso não reduz a admiração e respeito que tenho pelo Morse. Só me diz que dois músicos que admiro estão usando a internet a seu favor. Outros cinco, alguns dos quais admiro até mais do que os dois, não.

O BCC também tem uma estratégia interessante (embora meio insistente demais) de e-mail marketing. Dia sim, dia não, recebo algum email cujo remetente é "Glenn Hughes", "Joe Bonamassa", "Derek Sherinian" ou "Jason Bonham". Na verdade é um email institucional da banda contando as novidades. Neste press-release, seus empresários falam dessa estratégia.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Led Zeppelin - entre o passado e o futuro

LED ZEPPELIN - ENTRE O PASSADO E O FUTURO

Robert Plant, o ex-vocalista do Led Zeppelin, anunciou que vai fazer uma turnê com a cantora Allison Krauss, com quem gravou o belíssimo disco "Raising Sand". Isso de certa forma enterrou as esperanças de uma turnê seguir-se ao show mais concorrido do mundo, ocorrido dia 10 na O2 Arena.

E eu acho que está certo ele.

O show da O2 Arena foi emocionante, pelo pouco que vi. Pelo um pouco mais que ouvi do som, eles tocaram como dignos sessentões que sabem muito bem o que fazem - mais ou menos o mesmo que o Deep Purple faz. Mas é duro mergulhar na rotina do Deep Purple atual. Hoje, a grana de verdade está em fazer turnês mundiais, visitando vários países. O Purple faz hoje muito mais shows e visita muito mais países do que quando seus membros tinham vinte e poucos anos de idade. Há cinco anos, o tecladista Jon Lord não agüentou o tirão e pediu pra sair. Afinal, eles são senhores pra lá da meia-idade. Todos sentimos falta dele, mas eu entendo seus motivos.

Minha grande referência é sempre o Deep Purple. Nos anos 70, Led Zeppelin e Deep Purple (e outros!) representavam facetas da excelência a que o rock poderia chegar.

Sendo um único show, o da O2 Arena só tende a engrossar a mitologia do Led Zeppelin - quem conseguiu estar lá contará aos netos, quem não esteve que compre o DVD. Caso se desenvolva em uma turnê mundial, ou mesmo uma volta da banda, isso corre o risco de tirar a força da volta. Ter acabado em 1980, com uma só formação, foi um fator importante para o Led Zeppelin ter desenvolvido uma mitologia mais enraizada do que o Deep Purple, com suas várias voltas e mudanças de formação.

Quando o Purple esteve no Brasil pela primeira vez, em 1991, com sua quinta formação, foi um sucesso danado - embora o vocalista Joe Lynn Turner não fosse nenhum dos outros gênios que fizeram a glória do grupo e o guitarrista Ritchie Blackmore não estivesse lá em seus melhores dias. Entre 2003 e 2006, já estabelecida a oitava formação e o calendário intenso de turnês, o Deep Purple veio ao Brasil três vezes. Na de 2005, lembro de um amigo ter dito algo como "não vou; ano que vem eles estão aí de novo". E de fato estavam. Eu não me queixo, mas é inegável que isso tira o impacto da novidade.

"Percy" Plant tem mais uma coisa que explica sua posição, e que é o melhor argumento possível: sua carreira solo está num dos momentos mais inspirados. O disco "Raising Sand" lembra muito pouco o velho Led Zeppelin, mas é a melhor coisa nova que ouvi nos últimos tempos. Ao preferir Allison Kraus a Jimmy Page como parceria para uma turnê, Plant acerta em cheio.

Entre apostar no passado e apostar no futuro, é sempre mais sábio apostar no futuro. Especialmente para um homem que já experimentou os louros do sucesso com o Led Zeppelin quando era jovem e magro, gritava sem esforço e nunca tinha ouvido falar em Aids. Se ele deixasse de lado a turnê de seu belo novo disco, deixaria de investir no músico experiente que é hoje para viver pelo menos temporariamente das glórias do rapaz cobiçado que um dia foi, mas que nunca mais vai voltar a ser.

Eu adoraria assistir a um show do Led Zeppelin ao vivo. Não seria a mesma coisa, como os shows do Purple hoje não são a mesma coisa da minha fase favorita deles (de quando eu sequer era nascido). Mantenho meu profundo respeito por eles se não houver. Afinal, passei 15 anos ouvindo o Led sabendo que nunca veria um show do grupo. Agora: se Plant vier ao Brasil com a turnê de seu novo disco, eu não perco de jeito nenhum.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Fênix

O Deep Purple voltou em 1984, depois de oito anos parado. A volta foi chamada de caça-níqueis na época. Depois, ficou comum bandas voltarem para homenagear a si próprias - mas praticamente só o Deep Purple voltou a ser uma banda que dá a cara a tapa produzindo coisas novas consistentemente.

Em novembro, duas ótimas bandas farão um tributo a seu passado glorioso em Londres: Led Zeppelin (com Jason Bonham na bateria) e Sex Pistols (que já voltou duas ou três vezes antes). O Led vai homenagear o produtor Ahmet Ertegun - o cidadão que assinou o contrato deles com a Atlantic Records. Os Pistols vão homenagear os 30 anos do disco "Nevermind the Bollocks".

Ambos valem a pena para quem estiver a fim de vender a mãe pra ver grandes bandas fazendo grandes shows. Eu, pessoalmente, só vendo a minha se um dia rolar aquele show proposto pelo Jon Lord, reunindo todos os ex-membros do Deep Purple. Mas só o Jon Lord e os ex-membros da Mk3 e da Mk5 (menos o Blackmore) são a favor, portanto minha genitora pode dormir sossegada.

terça-feira, 18 de abril de 2006

meu maestro soberano foi Antonio Brasileiro

Eu sei que muitos de vocês não devem ser fãs do Tom Jobim. Mas ele tinha algumas idéias muito interessantes sobre a música. Pensem em Deep Purple enquanto lêem:

"Um [sintetizador] DX7 reproduz quase perfeitamente o som de qualquer instrumento. Mas não será jamais o instrumento. Daí que a música que toca no rádio é chata, toca na TV é chata, aqui ou em qualquer parte do mundo: é pasteurizada, repetitiva, sempre igual, sem imaginação. Chata. Hoje, no Brasil, para ser músico, a primeira coisa que você tem de fazer é arranjar um contrabandista que lhe traga estes teclados todos. Isto é revolucionário? Não acho. Beethoven ainda é mais revolucionário do que todas estas novidades. Para mim, a música reflete os movimentos da alma: aquele achado feliz, o sair de uma tonalidade e encontrar um caminho novo para chegar a outra... enquanto se raciocina em termos de decibelagem."

TOM JOBIM, em entrevista ao O Globo em 1987

"Música é um negócio que já é difícil de você falar sobre. Falar sobre música é difícil. Desde o Wagner é que eles estão falando se o robe de chambre do Wagner é púrpura ou é roxo, não sei o quê. Umas conversas que não tem nada a ver com a música. E depois o cara acaba falando mal do próprio compositor, diz que ele é aquilo, aponta defeitos físicos. Ora, a vida de um compositor não é isso absolutamente, né. Eles estão interessados em apontar defeitos e coisa e tal. E dizer que isso é crítica musical. Nem por um instante eles falam de música, nunca."

"Nós só conhecemos as músicas editadas, as músicas inéditas nós não conhecemos. Eu conheço Beethoven, Ravel, Bach, Charlie Parker, George Gershwin, mas são músicas editadas, né. E às vezes eles estão esperando que seja tudo inédito. Perguntaram ao Baden Powell: 'Escuta, o seu novo CD tem músicas inéditas.' Ele disse: 'São dezesseis inéditas de sucesso.' Bem, aqui também você faz a música um ano atrás, dois anos atrás, três, dez anos atrás, e (dizem) 'Música velha!' 'Ih, essa música tava na novela do ano passado ("Querida"), é uma coisa antiguíssima.' É
uma música de uma ano, quer dizer, é um neném. Eu toco música aí nesse piano de trezentos anos."

"A grande coisa do revolucionário do moderno é que ele vira clássico. Como Debussy virou um clássico. O Stravinsky foi dar uma conferência em Harvard, ele já estava meio velho, e ele chegou lá, tinham aqueles alunos jovens. (Um deles disse) 'Maestro, o senhor fez uma revolução completa na música'. Ele pega um objeto na mesa (Tom pega um objeto na mesa) e disse: Ólha, meu filho, uma revolução completa é isso. (girando o objeto em 360 graus) Porque se você fizer meia revolução, aí fica tudo de cabeça pra baixo, é o pau-de-arara. A revolução completa são 360 graus, volta tudo para o mesmo lugar! O cara vai pensar que vai revolucionar botando de ponta-cabeça. Aí fica tudo ao contrário."

"Eu não defino linhas de fronteira entre a música popular e a música erudita. Inclusive Chopin, Villa-Lobos, está cheio de temas populares dentro da música erudita. Essa divisão é falsa, não leva a nada também. Certas pessoas gostam de dar nome às coisas. E dar nome às coisas impede a compreensão. Eu chamo Maria de Maria e aí penso que conheço Maria. Mas Maria é uma outra coisa. É essa coisa de fazer enciclopédia, botar todos os nomezinhos lá. Quando aparecer um nome novo, fazer mais um volume pra completar a teoria. Catalogar, né."

"Mas porque essa obrigação de compor sempre? Eu nunca entendi isso bem. E as músicas inéditas, eu vou mantê-las inéditas pra que ninguém possa saber. Ninguém possa achar nada. Senão eles acabam pondo as músicas obscenas, os hinos do clube de futebol, acabam botando tudo, fazendo disco, você sabe. Os poemas eróticos do Drummond, por exemplo, eu não sei se ele gostaria... Não sei, duvido. E depois só se vê bem com o coração. O que acontece é que fica esse negócio de 'Olha lá ele! Tá com uma barriga! A roupa...O chapéu tem uma aba curta!' Não adianta. O robe de chambre do Wagner se era púrpura ou se era roxo. Fica exatamente o que não é, o que não interessa."


IDEM, em sua última entrevista, de novembro de 1994

sábado, 15 de outubro de 2005

Poetinha superstar

Em 1970, Ian Gillan gravou os vocais de Jesus Cristo no disco conceitual "Jesus Christ Superstar", de Andrew Lloyd Weber, que viraria peça logo a seguir e filme em 1974. Dois anos depois da gravação da obra original, Vinicius de Moraes seria chamado para traduzir as letras para o português. Quer ouvir? Clica aqui. E acompanha as letras assim.

A primeira vez em que ouvi foi numa fita emprestada pela professora responsável pela biblioteca do colégio onde eu estudava no segundo grau. Ela tinha visto a peça na Broadway nos anos 70 e comprado a fita na saída. Aí começamos a comentar sobre a voz do sujeito e coisa e tal... e no fim acabei emprestando uma fita do Deep Purple pra professora (que não conhecia, mas pra minha surpresa até gostou). Era muito legal, porque a gente tinha altos papos sobre literatura - foi sentado em frente à mesa da professora que eu comecei também a ouvir jazz.

Ao gravar a versão original das letras, Ian bolou a forma de cantar ao lado do piano, com Andrew Lloyd Weber e Tim Rice. Mas ficou todo encucado. "Meu único problema era Jesus Cristo. Tendo sido criado como cristão, mas (na época) tendo sido confirmado no paganismo, fiquei intrigado com a ética da coisa. Tim resolveu o problema me dizendo como ver Cristo... não como um ícone religioso, mas como uma figura histórica... e funcionou muito bem."

Acompanhem com atenção as letras originais de JCS. São muito legais. Críticas, mas sem afronta. Modernas, mas mantendo trechos tirados direto da Bíblia. Por mais que eu seja agnóstico, ESSA interpretação de Jesus Cristo é a que eu admiro. O José Saramago fez algo semelhante em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo". Em ambas as histórias, de certa forma, o herói não é o personagem-título, e sim o Judas.

Uma das grandes virtudes que eu sempre achei nas letras de JCS foi a mistura de passagens literais da bíblia - ou pelo menos com um tom e vocabulário solenes o suficiente para terem vindo de lá - com gírias de hippie ("Take this cup away from me/for I don't want to take its poison/ (...) You're far too keen on where and how but not so hot on why"). O Poetinha mantém a métrica perfeita, mas pra isso abusa da gíria.

Vinicius nessa fase era um ripongo velho e safado. A tradução de JCS chegou a ser encenada em teatros paulistas em 1972, com orquestra e tudo mais. A gravação estava perdida (sequer se sabe se chegou a ser lançada comercialmente na época), até que as masters foram encontradas nos porões da gravadora Universal, há quatro anos, e relançadas numa caixa caríssima. Ficaram perdidos no tempo os nomes dos instrumentistas e cantores.

"Heaven on their Minds", o belíssimo petardo com que Judas abre o disco criticando a postura do personagem-título, virou "Céu na Cuca" na tradução do Vinicius. O poetinha toma liberdades tipo dizer "você deu uma de Cristo". No duelo entre os dois personagens principais, ele tascou um "Vai, imbecil! Engrena e vai. Chega de papo! Você já encheu, vai!". (Sim. É a hora em que o Gillan dá seu maior agudo no original.)

Tomei a liberdade de comparar uma estrofe, frase por frase, no original, na tradução do Vinicius e em uma tradução minha (sem métrica e sem rima, mas mais fiel ao original). Vejam só:

a) Listen Jesus I don't like what I see
b) Eu não estou gostando disto, Jesus
c) Olha, Jesus, não estou gostando do que vejo

a) All I ask is that you listen to me
b) Você deu uma de Cristo, Jesus
c) Tudo que eu peço é que você me escute

a) Please remember - I've been your right hand man all along
b) Nem se lembra eu era bom pra tudo, Jesus.
c) Por favor, lembre - eu fui seu braço direito o tempo todo

a) You have set them all on fire
b) Estão todos com a mania
c) Você acendeu o fogo de todos eles

a) They think they've found the new messiah
b) De que você é o Messias
c) Eles acham que descobriram o novo messias

a) And they'll hurt you when they find they're wrong
b) Em que fria você se meteu...
c) E vão feri-lo quando descobrirem que erraram


ERRATA: Foi Carlos Drummond de Andrade quem traduziu as letras do Álbum Branco. A tradução pode ser conferida aqui. Salve mestre Rui Goiaba.

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Elo perdido

Achei o elo perdido entre o Deep Purple e o Miles Davis. Chama-se Billy Cobham, o baterista de jazz que vem ao Brasil no próximo ano.

Cobham tocou com Davis nos discos "A Tribute to Jack Johnson" e "Bitches Brew", no início da fase "fusion" do trumpetista. Pouco tempo depois, chamou um certo Tommy Bolin pra tocar em seu primeiro LP solo, "Spectrum".

segunda-feira, 1 de março de 2004

Cinquentona

A Fender Stratocaster, corpo e timbre de guitarra que consagrou o Ritchie Blackmore (notório destruidor de várias delas), completa meio século.

O Estadão lembra alguns de seus principais usuários (como Eric Clapton, que teria dado a primeira strato para o homedepreto) e conta fatos interessantes da história dessa guitarra. Diz, por exemplo, que as melhores guitarras Fender são as anteriores a 1965, quando Leo Fender estava morrendo e vendeu a empresa para o conglomerado CBS.

Nas primeiras gravações do Purple, até o In Rock, Ritchie usa uma Gibson. A partir de então, é tudo na base da stratocaster. É nítida a mudança do timbre. Compare, por exemplo, o som da guitarra no solo de Child in Time com o de Strange Kind of Woman.

"Prefiro a Stratocaster porque ela tem um som mais 'de ataque'. No começo, eu não conseguia me acostumar com a Strat depois da Gibson. Os braços são bem diferentes. Mas agora não consigo mais me acostumar com a Gibson. Uma Stratocaster também é mais difícil de tocar do que uma Gibson. Sei lá por quê. Acho que é porque não dá pra correr tão rápido os dedos pela escala de uma Strat. Com uma Gibson você tende a se perder. É bem fácil zunir de cima a baixo, e você acaba tocando formas físicas ao invés de realmente trabalhar algum som original. (...) Tocar uma Fender é uma arte em si. Elas estão sempre desafinando. Mas, do jeito como eu toco, eu mantenho um bom controle sobre ela."

(Entrevista à Guitar Player em 1973, a mesma em que Blackmore afirma que seu principal efeito na guitarra é o amplificador a todo volume e diz que o melhor jeito de aprender é copiando dos outros; "simplesmente roube", diz ele.)

Por ter acostumado tanto o ouvido, minha guitarra dos sonhos é uma Fender Stratocaster especial, modelo Ritchie Blackmore, existente desde 1993. Vem com o braço escavado (coisa que ele faz com as guitarras desde os 15 anos, pra dar mais sensibilidade ao toque nas cordas e, portanto, mais rapidez) e outras especificações semelhantes às usadas pelo bruxo, como o captador do meio lááááá embaixo ("fica no caminho da palheta", justificou em 1973).

Nas lojas brasileiras, custava mais ou menos o preço de um fusca em bom estado certa vez que comparei.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2004

Callas Forever

Outro dia a Belisa quis ver o filme "Callas Forever", sobre a cantora de ópera Maria Callas. O filme não é lá grande coisa, tirando algumas belas sacadas e a lindíssima Fanny Ardant no papel-título. Mas de lá eu tirei alguns raciocínios bem interessantes.

Por aí, e até mesmo por aqui, sempre tem alguém que vem dizer que o Gillan "não canta mais nada" desde 1983, quando gravou seus últimos agudos prolongados com o Black Sabbath (em Toolbox - de 92 - ele fez uns agudos longuinhos, diga-se). Entendo o que esses caras querem dizer, embora não concorde.

Maria Callas tinha um problema parecido. Com mais de 50 anos de idade, ela não alcançava mais os agudos da juventude. E isso, para uma cantora lírica, é fatal. O público dela esperava aqueles agudos. E as óperas são compostas para exatamente aqueles agudos.

O Gillan, embora tenha o mesmo problema que a Maria Callas teve, não precisou se esconder em casa. Desenvolveu os tons médios. Desenvolveu os graves. Ao vivo, as músicas antigas são tocadas alguns tons mais graves que o original. Sim, a voz do Ian Gillan não é mais a mesma, mas ninguém volta a ter 25 anos.

Em 1970, auge do mestre, nunca imaginaríamos que um dia ele cantaria "No More Cane on the Brazos", especialmente aquela parte do "why don't you rise up, you dead men, help me drive my road, oh, drive my road". A música "Never a Word", do Bananas, nunca seria gravada - e ali ele brinca com a voz, faz dueto consigo mesmo em dois tons diferentes, parece coisa do MPB 4.

Sim, o Gillan não canta mais "Child in Time". Mas acho que ele hoje é um cantor muito mais completo. Acho muito mais honesto da parte dele compor para a voz que tem do que usar recursos heterodoxos como a ajudinha da guitarra para os agudos de Child in Time, que se ouviu em Come Hell and High Water.

No filme, dada a oportunidade a Maria Callas de dublar, já coroa, sua voz jovem, ela inicialmente aceita... mas depois salta fora. Aquela voz não era mais dela, e a Callas que o público queria estava morta.

Dada oportunidade semelhante ao Ian Gillan, ele prefere desenvolver os tons médios e graves e continuar cantando. Temos dois cantores ótimos assim: o jovem Gillan e o Gillan maduro.

Eu acho que o Gillan é muito mais sábio nesse sentido. É algo que a música popular lhe faculta, mas ainda assim eu tiro meu chapéu.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2003

Mr. Madman

Não estou curtindo nem um pouco a sobreexposição do Ozzy. Sempre respeitei o cara, até pelo meu passado de metaleiro e tal. Claro, tinha as histórias de morder morcegos no palco, e nunca esqueço da performance dele fazendo omelete no vídeo "O Declínio da Civilização Ocidental, Parte 2 - Os Anos do Heavy Metal", gaguejando e se descoordenando porcamente. Era vez que outra, entrava nos anais do folclore roqueiro.

Mas nos últimos dois anos toda semana o Ozzy arranja algum escândalo familiar pra aparecer pelo pior motivo possível. Primeiro veio a bajulação à rainha da Inglaterra, lembram? Antes ele também profanou a letra de War Pigs - transformando um hino antimilitarista em historinha de bruxas new age. Depois veio o reality show na MTV, doença "terminal" da mulher dele, piração do filho, filha cantando música da Madonna e demonstrando gostar de mulher... Semana passada foi aquela história da bolinação. Hoje, tá no Estadão que ele está processando o psiquiatra dele porque deu uns remédios que deixavam ele muito fora do ar.

Que diabos se passa com o Ozzy? Resolveu levar a sério os comentários de que ele se tornou uma caricatura de si mesmo?

Há alguns meses, alguém escreveu pro site do Ian Gillan perguntando se ele não pretendia fazer um reality show que nem o do Ozzy. "Is nothing sacred anymore???", foi a resposta do mestre. Por essas e outras é que eu respeito imensamente o Deep Purple.

Claro, curto o Black Sabbath. A fase do Ozzy é um primor. Mas... bem que ele podia se respeitar um pouco mais.

domingo, 19 de outubro de 2003

Glover: a finalidade do Deep Purple é a música

"A única coisq que eu sei sobre o DP é que ele sempre foi uma banda cuja finalidade é a música, acima de tudo. Aprendi há muito tempo que o DP era uma banda de músicos que queriam ser tão 'naturais' quanto possível. Em outras palavras, cada um de nós só precisava ser ele mesmo. Parece simples, mas às vezes as coisas mais fortes são as mais simples. Em toda sua existência, o DP também teve alguns músicos realmente talentosos que amam tocar e não são motivados primariamente pelas armadilhas do show business. Isso pode ser tanto bênção quanto maldição, mas pelo menos é uma bênção. Também tivemos a sorte de estarmos presentes no começo de uma nova era, algo que não pode ser planejado, e assim ganhamos alguma credibilidade por termos largado na frente."

ROGER GLOVER, definindo o Deep Purple

sábado, 18 de outubro de 2003

Este é o Funky Claude

Todo mundo que realmente curte Deep Purple tem ao menos uma vaga idéia sobre quem é o Funky Claude mencionado na letra de Smoke on the Water: era um cara lá da Suíça que deu uma força sem tamanho ao Purple quando deu todo aquele rolo de o Grand Hotel queimar, e tal.

Mas quem é esse cara?

Claude Nobs é o maior agitador cultural da Suíça. Foi ele quem fundou o maior e mais famoso festival de jazz do mundo. Ele é um ex-chef de restaurante que virou o maior agitador cultural da Suíça. Desde 1956 ele trabalha pra secretaria de turismo de Montreux, e em 1965 foi aos EUA e descobriu que sua cidade era uma completa desconhecida na Gringolândia. Disse isso para seu chefe e o cara perguntou se ele tinha alguma idéia. Apaixonado por jazz, ele propôs a criação de um festival, e o Montreux Jazz Festival surgiu em 1967.

Por causa do festival, Nobs ficou amigão de gente tipo Miles Davis e Ella Fitzgerald, e ainda hoje trata os caras do Purple na base do "tu". Certa vez, o Miles Davis viu ele com uma camisa tunisiana e achou bonita. Nobs tirou a camisa e deu de presente pro mestre do jazz.

Foi ele que começou a experimentar com a amplitude do gosto do pessoal do jazz, em seu festival. Em 1969 ele convidou o Ten Years After e torceu uns narizes. "Eu não via limites - blues, r&b, gospel. Pra mim, jazz significa partilha emocional por instinto, um frescor improvisacional", disse ele à Time Magazine. Desde 1979 ele chama músicos brasileiros, começando com a Elis Regina. Nos anos 90, ele torceu narizes (inclusive o meu) ao convidar até o É o Tchan pra tocar lá. Redimiu-se quando por duas vezes chamou o Deep Purple.

Sobre o estado atual da música, e especialmente do jazz, ele diz:

"Sempre haverá músicos jovens. Mas o que é difícil de achar é um Coleman Hawkins, um Miles Davis. Mesmo o Wynton Marsalis — com toda sua força de improviso e técnica — não tem o mesmo nível de gênio como alguém menos perfeito como Miles. Fico pensando se todas essas tecnologias à disposição não diminui o nível de criatividade pura e simples."

terça-feira, 14 de outubro de 2003

Divagações musicais

Guardadas as diferenças óbvias, "Machine Head" é para o Deep Purple o que "Kind of Blue" foi para o Miles Davis. A simplicidade do riff de Smoke on the Water lembra o despojamento do tema básico de So What, aqueles dois acordes que se repetem. Sem falar em fraseados aparentemente imperceptíveis mas que se ouve com a familiaridade do som do vento, como a divagação de Jon Lord no teclado em Maybe I'm a Leo ou a de Coltrane em Blue in Green. Ou a repetição que, no tempo do vinil, fazia supor que o disco havia arranhado - tanto no riff do refrão de Space Truckin' quanto no solo de Davis em Flamenco Sketches.

Claro, nem todo mundo que gosta de Deep Purple vai gostar de Miles Davis e provavelmente vice-versa. Mas ouvir atentamente discos como esses é uma ótima explicação para o motivo de os artistas reunirem sua produção em álbuns. Bem sacado, o álbum mostra claramente as idéias que rolam na cabeça dos artistas num período determinado de tempo.

Há quem me pergunte "tá, mas que música do Deep Purple é boa?". Pessoalmente, não gosto desse tipo de pergunta, assim como não gosto de coletâneas por melhores que sejam. Elas desfiguram o trabalho de um artista pinçando apenas o que se tornou mais famoso - e desgastando pela repetição. Gosto é do álbum, com seus altos e baixos e preciosidades que não chegam a ficar famosas mas são uma delícia de descobrir.

Isoladamente, não tenho mais saco pra ouvir Smoke on the Water. No contexto de Machine Head, porém, entre Never Before e Lazy, a música volta a significar exatamente o que eu entendi dela quando tinha 15 anos e troquei o ingresso que tinha ganho do baixista do Roxette por um vinil de Machine Head na Megaforce. Cheguei em casa no final da tarde, com o disco dentro daquele saco preto com a mão prateada segurando um raio, e deitei sobre ele a agulha. Eu já conhecia Smoke on the Water, claro. Mas apenas depois que eu ouvi sobre o vazio, as águias e a neve e virei o disco e que entendi o que significava a fumaça sobre a água e o fogo no céu.

É o mesmo com o Kind of Blue. No meu tempo de solteiro morando sozinho, descobri em furtivos encontros o quanto o timing do Miles Davis era perfeito. Tenho So What em uma coletânea também - mas ali ela significa uma passagem entre um tema de Porgy & Bess e My Funny Valentine. Dentro do Kind of Blue a mesma música abre uma perfeita noite em boa companhia que sutilmente vai determinando um clima exato até que cai nos lençóis macios de Flamenco Sketches. E aí, meu amigo, o melhor é abrir o Torrontés enquanto Freddie Freeloader está na área.

sexta-feira, 10 de outubro de 2003

A rádio da cabeça do Blackmore

Olha este trecho da entrevista do Homem de Preto à Guitar Magazine, em 96:

"P: Começando lá por Burn e nos primeiros discos do Rainbow, seu jeito de tocar espelhou muito escalas tipo mesoeuropéias, meio húngaras.

R: Definitivamente. São minhas favoritas. Isso me emociona, essa coisa de paixão xigana. Basicamente os ciganos turcos, aquela coisa modal israelense. Adoro ouvir isso. Às vezes você liga a TV ou o rádio naquelas estações estrangeiras e ouve essas bandas turcas tocando, com aqueles instrumentos muito esquisitos e o cantor cantando aqueles semitons estranhos. Aquilo me motiva, pega bem no nervo."

P: Quando você foi exposto a isso pela primeira vez?

Não lembro. Não foi neste mundo. Sinto que foi há uns 400 anos, e que tem a ver com a minha crença na reencarnação. Existe alguma coisa naquilo que me leva de volta no tempo."


No DVD de The Making of Machine Head, o Jon Lord tira sarro disso. Diz que o Blackmore ouvia uma rádio húngara que só pegava na cabeça dele.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2003

Coincidências

O grãde Leãdro falou outro dia da tremenda coincidência de acharem uma carrada de material inédito e original dos Beatles num espaço de poucos meses. Eu comentei que tinha pencas de material antigo e sumido do Deep Purple que andou aparecendo. Pois andou aparecendo mais coisa: acharam fitas originais de um show que eles fizeram no Olympia, em Paris, em novembro de 1970. A Deep Purple Appreciation Society está em cima para lançar. O show havia sido passado no rádio e o Simon Robinson conta que ficaram 18 meses procurando esse material.

Andei pensando no assunto, e não acho que haja tanta coincidência assim. Acho que tem a ver com o avanço da tecnologia. Vou me remeter, como sempre, ao exemplo do Deep Purple. Mas esqueçam que é o Purple e reparem no processo mercadológico e tecnológico disso.

Antes, no tempo do vinil e da fitinha, tinha que selecionar muito o que ia botar, porque o espaço era curto. Acabava sobrando uma porrada de coisas e muita coisa boa acabava indo pro lixo, sumindo em arquivos ou sendo apagada. Em 1968, o Deep Purple gravou um cover de Lay, Lady, Lay e um de Glory Road. Ambos foram apagados - como não gostaram do resultado e era caro o material de gravação para uma banda iniciante, resolveram gravar coisas em cima.

Depois que o CD virou o padrão, a indústria fonográfica passou dez anos lançando discos exatamente como lançava na época do vinil, talvez com músicas a mais. Quando relançava algum disco em CD, no máximo incluía uma ou duas músicas diferentes do que já havia. Lá por 1995 isso andou mudando. Como não acompanho outros grupos antigos, volto a me reportar ao Deep Purple.

Em 1995, foi lançada a edição comemorativa de 25 anos de In Rock. Além das faixas originais, ela incluía bate-papo de estúdio, galinhagens entre os participantes, músicas que não chegaram a fazer parte do vinil, solos não usados e etc. Em 1996 ou 1997, a indústria fonográfica lançou "Free as a Bird", uma música inédita dos Beatles que estava nas gavetas. Foi sucesso. No campo do Deep Purple, na esteira do In Rock vieram as remasterizações de Fireball, Machine Head, Who Do We Think We Are, dos três discos da primeira formação e depois do clássico Made in Japan. Todos também com belos encartes de 50 páginas contando a história da época, com fotos inéditas e tal.

Quem era fã e já tinha o original, mesmo que em CD, acabava comprando esses de novo. Eu tenho todos esses em vinil. Meu In Rock em vinil é da primeira impressão brasileira, de 1973. Um bolachão grosso, pesado. Mas é muito legal ouvir os caras do Purple galinhando enquanto compõem. Meu Machine Head eu ganhei do Roxette, por vias tortas. Mas a edição remasterizada, dupla, inclui um CD "what-if" - em que o Roger Glover remixou as músicas com solos e outras linhas instrumentais que não foram usados, e nesse disco hipotético o Gillan grita "Break a leg, Frank!" nos instrumentais finais de Smoke on the Water. Era uma galinhagem com o Frank Zappa, que uma semana depois de ver o cassino de Montreaux pegar fogo no meio de um show seu, levou uma rasteira de um fã em pleno palco e quebrou a perna. Tenho Burn em vinil e em CD, mas assim que sair o remasterizado vou acabar comprando.

Criou-se um mercado para isso. Se as antigas masters tinham valor quase só para colecionadores privados, elas relançadas em novos pacotes trariam um lucro sem tamanho para a indústria da música - que também enfrenta outros problemas sérios na parte da pirataria e distribuição. Novas tecnologias, como o DVD e DVD-A, e a convergência das formas diversas de aparelhos de entretenimento para um só eletrodoméstico (o computador), tornaram ainda mais atraente esse conteúdo. Junte isso a megaconglomerados tipo AOL-Time-Warner-Turner-DC Comics-Xis do Bigode, e voilà.

Não é por acaso que a Globo está direcionando toda sua operação eletrônica para venda de conteúdo (condicionando à do acesso). Não é muito por acaso que a Globo está revirando suas gavetas para lançar em DVD minisséries e compactos do Casseta e Planeta e do TV Pirata. O Deep Purple também andou lançando um DVD do Concerto para Grupo e Orquestra na versão de 1969, que estou louco pra comprar.

Para ter uma idéia do valor dessas coisas, o colecionador que tinha em casa o rolo de fita com o show do Deep Purple na Universidade de Hosfra, em Nova York, em 1973, cobrou uma fábula da produtora que fez o vídeo com o documentário sobre a gravação de Machine Head. Ah, é pra ser lançado em DVD também? O cara cobrou uma grana preta por minuto, e muito poucos minutos puderam ser usados.

Não é coincidência essa série de encontros fortuitos. É busca agressiva de mercado.

Não é a coincidência. É a convergência.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2003

O último?

O Jeogger perguntou, no fórum brasileiro sobre o Purple, se a gente achava que seria o último CD da banda esse que eles estão gravando em Los Angeles. Respondi o seguinte:

Depende.

A Wired está apostando no fim da indústria fonográfica para breve, muito breve. Talvez ainda este ano: as maiores gravadoras pertencem a conglomerados tipo AOL-Time-Warner-Turner-DC Comics-Churrasquinho do Alemão, e esses conglomerados têm pé na internet. Com a ampla difusão da banda larga, que rende pilas pra eles, e a extrema dificuldade de coibir a pirataria, a tendência seria acabar aos poucos com a indústria do disco e passar a algo como a venda de engenhocas para portar música digital.

Viagem pra caralho, mas se rolar é bem provável de esse ser o último disco do Deep Purple. Não arrisco muito ponderar sobre quando será o fim deles. Já tiveram fins demais pra poder dizer ao certo.

Ainda outro dia eu estava futricando meu imenso arquivo de recortes e encontrei as duas revistas-pôster que a finada revista Somtrês fez com o Deep Purple, em 1983 e 1984. A primeira dizia "Deep Purple - a banda que um dia vai voltar". E a outra era de logo após o lançamento de Perfect Strangers. Nada é definitivo em se tratando de Deep Purple. E isso é que é fascinante.

No fórum gringo, há mais de um ano, um cara levantou a idéia de que o Deep Purple segue a idéia de "Roundabout", carrossel. Que, por sinal, era o primeiro nome da banda. Seria um sexteto de músicos, sendo que três seriam fixos e os outros se revezariam em torno deles. Uma idéia do maluco do Chris Curtis, baterista do The Searchers, que dividia apartamento com o Jon Lord e era pirado o bastante para forrar as paredes do apartamento com papel-alumínio.

Também nesse fórum, li a frase de que o Deep Purple é maior do que a soma de suas partes. Sozinho o Gillan faz Dreamcatcher, o Blackmore toca Greensleeves no violão, o Lord compõe concertos de piano, o Glover desenha (e bem pra caralho), o Paice dá oficinas de bateria, o Morse pilota aviões e o Don Airey toca como músico convidado em trocentas bandas. Juntos, sob o nome de Deep Purple, eles fazem chover. Essa é a mágica.

sexta-feira, 6 de setembro de 2002

British Beat Boom

Tu és que nem eu, que quando ouve o pessoal elogiar a onda de bandas inglesas fica pensando que nihil sub sole novum?

Pois olha: entre 1963 e 1966, quando os Beatles mal e mal estavam começando a ser mais famosos que Jesus Cristo, houve uma onda de bandas no Reino Unido. Algumas experimentais, muitas bem boazinhas. Entre elas estavam The Artwoods (de onde saiu Jon Lord, do Deep Purple) e Episode Six (onde Ian Gillan e Roger Glover tocavam).

Para conhecer algumas dessas bandas obscuras, vá ao Groups and Artists featured in the British Beat Boom. E depois corra ao Kazaa e congêneres.

segunda-feira, 29 de julho de 2002

"O novo" isto, "o novo" aquilo e o Deep Purple

Permitam-me quebrar um pedacinho do meu sigilo de correspondência para postar aqui uma mensagem que mandei para a lista Morsas. Fecha bem com a "linha editorial" do Cabide - se é que o Cabide tem isso.

Mano Velho perguntou, na lista, quem é o Harry Connick Jr. O Délio Freire respondeu, e eu teci comentários em cima.

> É um músico que a mídia tentou vender
> como o 'novo' Frank Sinatra um pouco pelo repertório
> parecido de seus CDs e pela tentativa de emplacar uma
> carreira como ator em cinema.

O Harry Connick Jr. é um crooner bem bonzinho, que canta standards do jazz. Coisa que o Frank Sinatra fazia no começo da carreira junto com uma penca de outros - inclusive o Louis Armstrong. O diferencial do Connick era que hoje ele é o único a gravar isso.

O problema é que a indústria pornofonográfica vê uma coisa legal dessas e tenta vender como "o novo" isto, aquilo ou aquele outro. Várias vezes já vi cantoras jovens e boas (por vezes duplamente) de jazz serem vendidas como "a nova" Ella Fitzgerald, Aretha Franklin ou Billie Holiday, só para serem esquecidas depois - sem merecerem.

Tudo por causa dessa mania da indústria pornofonográfica de achar que "o novo" algo antigo vende. Aliás, para citar um exemplo que o pessoal deve conhecer melhor, Black Crowes era uma banda bem boazinha de rock que caiu no ostracismo só porque, quando apareceu, foi vendida como "a nova" banda "com som dos anos 70" - o que parecia, mas não era. Eles eram eles e era isso. Só que é mais fácil de criar sucessos instantâneos anunciando "o novo" do que "este".

Coisa que não acontecia trinta anos atrás, antes da hiperprofissionalização das relações públicas e da indústria do entretenimento. Andei lendo bastante sobre essas coisas por causa do meu fascínio pelo Deep Purple. Uma coisa que me deixava de queixo caído era o fato de eles serem praticamente desconhecidos em 1969,
terem acabado de sair de uma experiência com empresários altamente profissionais para a época e terem entrado num projeto ousado e autoral - nomeadamente com o Concerto para Grupo e Orquestra (de 1969, algo revolucionário na época e a que alguns músicos da Sinfônica de Londres reagiram com frases como "eu não vou tocar com Beatles de segunda categoria") e com o disco "In Rock" (1970).

Pois bem, com as facilidades do MP3, consegui pegar programas de rádio, da BBC, em que o Deep Purple ia tocar. A BBC dava uma força enorme para essas bandas da época - era cultura inglesa, bem ou mal, que seria exportada. Vide a recente proliferação de CDs "Led Zeppelin at the BBC", "Beatles at the BBC" e etc. Os caras iam lá para gravar versões de suas músicas, e essas versões iam ao ar. Não eram anunciados como "o novo", mas como "este" - até porque não havia precedentes na época.

(Adendo especial para o Purpendicular: ao que tudo indica, o apoio da BBC parou porque o apresentador John Peel ficou chateado ao ver que o Purple lançara um single - "Black Night" - entrando, portanto, no esquemão do industrião. Até então, o Deep Purple vivia na tensão dialética entre o pop e a contracultura, puxado para o lado da cultura britânica de exportação pela BBC.)

Quanto mais eu leio sobre aquele momento específico, mais me deprimem os efeitos deletérios da hiperprofissionalização da máquina de relações públicas, marketing e da indústria do entretenimento. Mata-se a criatividade com um piscar de olhos.

Leiam o artigo do Julio Medaglia sobre isso na Folha de hoje. Está muito bom.